Amizade selada a origami

IMG_2476

Concentradas nos pedaços de papel que têm à frente, a cada dobra geométrica do papel que contrai há uma amizade que se expande entre duas meninas que, mesmo sem falarem o mesmo idioma, se entendem na linguagem universal da infância. A arte secular japonesa do origami é só o pretexto.

Foi por acaso que viemos parar à casa da família de Taketo e Tomoko. Nas vésperas da viagem para o Sul do Japão recebemos um e-mail a dizer que teria havido um erro, lamentavam muito mas no hostel onde fizemos a reserva só recebiam crianças com mais de 11 anos. Pouca sorte, pensámos na altura. A procura de alternativa levou-nos ao minshuku da família de Taketo, guia turístico, nascido em Tóquio e casado com uma natural da ilha de Yakushima, onde ambos vivem com os 3 filhos e gerem uma pequena pousada ao bom estilo japonês: poucos quartos e casa-de-banho partilhada.

A filha mais nova do casal, de 4 anos, foi a melhor amiga da Mia durante os nossos dias em Yakushima. Como é que comunicavam e se entendiam sem partilhar a mesma língua? Espontânea e naturalmente, ultrapassaram essa barreira através do origami, do desenhar, das corridas, do jogar às escondidas e à apanhada. Em tudo isto parece existir um conjunto de regras universais e de aprendizagem imediata.

A comunicação vai além das palavras ditas, já se sabe: são os gestos, as expressões do rosto e do corpo, os silêncios, as emoções, os afectos. Na sua forma descomplicada de viver, as crianças ensinam que mais do que a falar, a brincar é que a gente se entende.

Com esta amizade luso-nipónica claro que, no início de cada dia, era uma missão difícil arrancar a Mia de casa para ir passear. “Quero ficar a brincar com a minha amiga!”. Lá íamos. Os dias passavam-se entre as florestas encantadas de Yakushima, uma ilha pequena com árvores gigantes, património da Humanidade segundo a UNESCO, cascatas abundantes, pontes que atravessam riachos, chuva que cai a toda a hora para acarinhar uma vegetação densa, numa explosão de verdes: verde-esmeralda, verde-floresta, verde-musgo, verde-jade, verde-chá, e cedros milenares, com mais de sete mil anos, gigantes adormecidos que parecem saídos de uma fábula.

IMG_2708

IMG_2721

IMG_2717

IMG_2716

IMG_2710

IMG_2732

IMG_2699

IMG_2701

IMG_2709

IMG_2733

IMG_2700

Por momentos, os grupos de veados e macacos que nos encontram na estrada fazem desviar a atenção da Mia da amiga que a esperava em casa, mas é sol de pouca dura. Depois de uma doce tangerina local oferecida como sobremesa num restaurante, lá vinha a pergunta do costume: “Quando voltamos para casa para brincar com a minha amiga?”

Na nossa última noite em Yakushima chegou um casal de hóspedes japoneses mais velhos e, com pena, Taketo disse-nos que talvez não fosse adequado as crianças entrarem no alvoroço dos outros dias. Por ali acorda-se muito cedo para fazer as caminhadas na floresta, era mais do que legítima a preocupação do dono da pousada que falava mais alto do que a vontade do pai. Resultado: duas miúdas tristes e amuadas. Oh, como um amuo também é coisa universal… Cada uma para seu lado. Ainda assim, antes de dormirmos, a menina apareceu no nosso quarto para se despedir e com um presente: uma flor de origami para a Mia levar na viagem. Abraçaram-se.

Madrugámos e acordámos às seis da manhã, com a emblemática canção Edelweiss, nome da flor branca dos Alpes, a ecoar, tal como acontecera nos outros dias. Não era o despertador de nenhum dos hóspedes, como pensámos até essa última manhã, mas sim o serviço de gestão de desastres municipais, inserido no sistema nacional de segurança, e transmitido por altifalantes espalhados por todo o território. É comum, soubemos depois, e existe em quase todas as cidades japonesas para informar as populações em caso de emergência, particularmente tsunamis, erupções vulcânicas e sismos. O Japão, sempre tão fustigado, vive em alerta. Em Yakushima serve sobretudo para avisar das condições meteorológicas e da eventual interrupção do serviço de ferries por causa do mau tempo, brindando a população do ilhéu com a canção austríaca – cada localidade tem a sua própria escolha musical -, todos os dias, às 6 da manhã, 365 dias por ano.

Embalados pela canção imortalizada no filme Música no Coração entrámos no carro já em contra-relógio. Sentada na cadeira do carro, a Mia começa num pranto: “Esqueci-me de uma coisa! Esqueci-me de uma coisa!”. Era impossível, tirámos tudo do quarto, bonecos incluídos, deve estar é em delírio do cansaço de ser acordada aquela hora, pensámos. “O presente! O presente da minha amiga!”, insistia. Vamos lá tentar resolver isto. Corremos para dentro de casa, nada à vista, mas debaixo colchão onde a Mia dormiu, lá estava ela: a flor de papel. Uma flor de papel, presente da amiga japonesa que mora na ilha que acorda ao som de Edelweiss e que a Mia levou bem segura na mão enquanto navegava no lugar onde o Mar do Leste da China encontra o Pacífico.

12829540_957171701069555_4434799489182357804_o

12823474_956505747802817_3558466670319340444_o

IMG_2734

IMG_2742

IMG_2741

IMG_2743

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s