Mundo da Mia #3

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Só tens 3 anos e meio. A maior parte das vezes nem me lembro disso. Pareces gente grande e só mais um adulto no meio de nós, arrastada para o outro lado do mundo numa viagem que não escolheste fazer. Tens os teus momentos maus, péssimos até, mas impressiona a forma como entras em barcos, autocarros, comboios, aviões durante longas horas a fio, atravessas ilhas, países, continentes, o mundo, e parece apenas que estás no nosso batido trajecto Lisboa-Setúbal. Ou a forma como comes qualquer coisa que te pomos à frente por mais estranha que possa parecer. Ou como a cada poucos dias mudas de cama mas dizes sempre quando chegas: “Uau, que linda casinha nova!”. Ou os teus comentários observadores, certeiros, inusitados que me obrigam a pensar sobre determinado assunto.

Também somos queridos para ti, atenção. Muitas vezes até gostaríamos de fazer coisas mais entusiasmantes mas vamos pastelar contigo para os parques infantis das cidades e deixamos-te ficar a brincar com os outros meninos e meninas. Sabes, podemos não admitir, mostrar-nos entediados até, mas fica a saber que apreciamos intensamente estes momentos do dia-a-dia em que estamos junto das pessoas dos sítios por onde andamos, longe das atracções turísticas. Gostamos de as ver, dos olhares cúmplices que trocamos, do assistir à vida tal como ela é, igual em todas as geografias naquilo que tem de mais importante. Criaturas estranhas, os teus pais, que abandonam as suas rotinas, o seu quotidiano, para viajar pelo mundo e acabam por sentir uma plenitude e preenchimento maiores quando sentem que fazem parte do quotidiano dos outros.

Mas olha, o dia em que te tirei esta foto não foi um desses dias que correm bem-dispostos e sem dramas. Foste acordada à brusca da tua sesta. Não é costume mas precisávamos de ir a um sítio um pouco longe para ver o pôr do sol. Por vezes não entendes muito bem estas coisas que nós dizemos que “precisamos” muito de fazer. Tens os teus ritmos, as tuas preferências e o Sol põe-se em qualquer lado. Mas olha, mais uma vez, “tinha mesmo de ser”, tínhamos de ir a Amarapura.

Entraste no carro que nos ia levar com uma neura e uma birra de sono gigante. Nem tudo é um mar de rosas nestas coisas de viajar pelo mundo com crianças, – é bom que se saiba, antes de tudo sou tua mãe e não quero com isso enganar ninguém. O senhor paciente e simpático que nos conduzia sugeriu pararmos num templo antes do nosso destino e acedemos. Acho que para ele era uma forma de intervalar o suplício da tua má disposição. Ele quis entrar connosco e, em Mahamuni, pegou-te ao colo e disse-te: “Anda tocar o sino. É para dar boa sorte”. E tu foste. Atabalhoadamente pegaste no pau de madeira e começaste a bater no sino de ferro. Talvez tenha sido o som a vibrar que interferiu algures nas profundezas do teu cérebro mas ficaste mais calma. Se fosse a tua bisavó, que nunca conheceste, diria que te tiraram o quebranto. Talvez tenha sido uma magia qualquer.

Quando chegamos ao nosso destino, ao lago Taungthaman, o tal sítio do pôr do sol, sugeriram-nos entrar numa barcaça de madeira com um senhor de ar respeitável. Não pensámos em nada, não pensámos na tua birra de há pouco e de como seria difícil de a gerir num pequeno barco no meio de um lago caso voltasse, só saltámos lá para dentro e pronto. Estávamos em transe, acho que tu também, como se fossemos fazer parte de uma cerimónia importante, cumprir um ritual sagrado.

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A ponte de estacas de madeira U Bein, em Amarapura, é a mais longa do mundo, quase um quilómetro e meio. Desde o século XIX une duas vilas e além de linda e fotogénica, é indispensável para o dia-a-dia destas populações. Milhares de pessoas atravessam-na de um lado para o outro, monges nas suas deambulações fora dos mosteiros Mahar Gandar Yone, Kyauktawgy e da Universidade de Yadanardon, ali nas redondezas, trabalhadores a caminho do ganha-pão, namorados que se vão encontrar, turistas à procura de momentos e de recordações. Lá está, Mia, o quotidiano, as cenas do quotidiano. Vê a beleza nas pequenas coisas e serás sempre feliz.

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O barco andou ali a navegar até que parámos no meio do lago para esperar que o Sol, ainda alto, iniciasse o seu périplo pelo horizonte abaixo. Tu estavas tão sossegada, ias observando tudo com os olhos bem atentos, parecias anestesiada. O cansaço do corpo falou mais alto e deitaste-te de costas no banco de madeira da “canoa”, foi assim que lhe chamaste. Não tínhamos ali os bonecos, o tablet, os lápis, os autocolantes ou as plasticinas que te amenizam as esperas, e ficaste simplesmente a olhar as nuvens no céu e a descortinar-lhes as formas. Disseste que vias crocodilos e dinossauros e eu vi tudo isso também pelos teus olhos. Havia mesmo crocodilos e dinossauros sobre as nossas cabeças, eu vi, filha, eu vi.

O Sol tardava em descer e lá fomos ficando hiptonizados pelas cores dos barcos, os reflexos das estacas de madeira a dançar nas águas do lago sempre que um barco passava, o silêncio interrompido pelo barco a motor de um pescador a recolher as redes, as expressões das outras pessoas, a solenidade do momento, a natureza na espectacularidade do quotidiano. O Sol põe-se todos os dias, não é?! Foi assim até as cores do céu ficarem laranja e cor-de-rosa, prenúncio de mais um dia que chega ao fim. Ficámos, assim, imóveis… até ao teu sopro: “Mãe, se calhar é melhor irmos embora… Já está a ficar de noite… Eu sei isso porque… porque já estou a ver a Lua…”.

Mia, filha Mia, “preciso” mesmo que saibas que estamos em Myanmar quando te escrevo, tens três anos e meio e és a melhor companheira de viagem do mundo!

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6 pensamentos sobre “Mundo da Mia #3

  1. lindo texto, linda mãe, lindo pai ❤

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  2. A beleza da simplicidade da vida quotidiana 😀
    Muito bom!

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  3. Adorei! Lindo texto, fantastica viagem. Bjs

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  4. Cláudia Cláudio

    Tão bom acompanhar-vos nesta viagem ❤

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  5. Até parece que estou aí convosco, tal é a forma como contas as coisas !!! Bjkas grandes e cá te vou lendo 😀

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