“Menina não entra”

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Em Myanmar os monumentos religiosos são deslumbrantes mesmo para o ateu mais devoto. A beleza, dedicação e poder espiritual reflectidos na construção e ornamentação dos templos e santuários atrai e comove. A visita a estes locais impõe um certo protocolo mas a maior parte das regras e rituais são muito fáceis de transmitir a uma criança de três anos. Se na entrada dos templos é preciso descalçar os sapatos é para entrarmos o mais limpos possível, à semelhança do que fazemos em nossa própria casa. Se as pessoas sentam-se de pernas cruzadas ou de joelhos, voltadas para a estátua gigante dourada do Buda é para agradecer coisas boas que lhes aconteceram na vida, saber como encontrar o melhor caminho ou pedir que se realizem desejos. Isto é tudo muito fácil de explicar à Mia e de ela compreender.

Mais difícil é fazê-la entender por que razão não pode subir estes degraus para ir ver aquelas “bolas douradas”. “Mas se estão lá pessoas eu não posso porquê?!”
Passámos por sinais de “área não permitida a mulheres” em alguns templos de Myanmar, apesar de, neste país, os direitos de homens e mulheres serem os mesmos. Aqui, na pagoda Phaung Daw Oo, no lago Inle, só aos homens é permitido subir ao altar para colar folhas de ouro em cima das cinco estátuas de Buda que, de tanto ouro em cima, já perderam as formas humanas e são apenas um conjunto amorfo.

Lá insistimos que ela teria que ficar em baixo, eram as regras daquele lugar, sem entrar nas questões de (des)igualdade de género. Por preguiça, falta de sensibilidade e de certeza quanto à melhor abordagem e pela idade dela… Como explicar que só os homens podem subir e as mulheres têm de ficar a assistir em baixo? Passamos a vida a repetir-lhe que as meninas podem jogar futebol se quiserem e os meninos podem fazer ballet se for essa a sua vontade também. Como harmonizar tudo isso com aquela placa que ordena que as mulheres não podem simplesmente subir os degraus e ir ver as “bolas douradas”?

Ela lá aceitou e, como tem sido hábito, foi sentar-se no chão a reproduzir os gestos que vê nos birmaneses budistas. Concentrada, de pernas cruzadas, com as mãos juntas em sinal de prece, cabeça para baixo e a balançar o tronco para a frente e para trás.
Depois veio ter connosco, que estávamos na rectaguarda, e disse que já tinha feito o seu pedido. Perguntei-lhe qual tinha sido o objecto do seu desejo. O objecto era um(a) sujeito(a). “Pedi para que uma pessoa que esteja doente fique boa”.

Saí do templo com mais preocupações do que tinha quando lá entrei mas também com uma certeza: para se ser grande não é preciso que nos autorizem a subir degraus…

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