Banda sonora para um Abril na estrada

image

Em Melbourne apanhámos o avião para Alice Springs, a cidade no centro de um continente, onde alugámos carro. Escrevo enquanto rolamos a bom ritmo na longa estrada Stuart Highway que une Adelaide, no Sul, a Darwin, no Norte, ao longo de 3000 quilómetros em linha recta. É aqui, no Centro Vermelho, que bate mais forte o coração da Austrália aborígene.

Durante milhares de anos o imenso território australiano era habitado apenas pelos aborígenes. Conheciam a terra e respeitavam-na, aprendiam a ultrapassar os caprichos da natureza, alimentavam os laços espirituais com o ambiente que os envolvia, passavam de geração em geração, oralmente e através de pinturas nas rochas, as tradições culturais, os rituais, os conhecimentos, as histórias, as canções.

image (22)Figuras representativas dos espíritos ancestrais na National Gallery of Victoria, em Melbourne. Autor: Jack Larrangkay

Depois veio a colonização, a apropriação das terras férteis e dos recursos naturais como a água por parte dos colonos, as epidemias, a violência e os massacres. A população aborígene foi dizimada, crê-se que em 90%.

image (19)

image (20)Instalação da artista Lorraine Connelly-Northey que viu um local importante para a sua família ser destruído pela construção de uma estrada. A obra pretende representar a violação de locais sagrados para a cultura aborígene

Entre 1909 e 1969 chegou a existir uma lei que consagrava ser permitido aos australianos brancos retirar forçadamente as crianças aborígenes às suas famílias. A prática prolongou-se mesmo depois da revogação da lei. Muitos meninos e meninas foram vítimas de abusos físicos, sexuais e outras crueldades. Às milhares de crianças retiradas com o apoio do governo, da igrejas e dos institutos sociais chamou-se “Gerações Roubadas” e os traumas individuais e colectivos perduram ainda hoje. Não é difícil de imaginar o baixo nível de auto-estima e de (des)esperança destas comunidades, que se traduz também em elevadas taxas de suicídio e na prática de pequenos crimes. Além das disparidades entre aborígenes e outros australianos no acesso ao emprego, à educação, à saúde.

image (16)Postais de aborígenes como souvenir num local de informação turística em Katherine,          Território do Norte

image (18)

Por coincidência, damos conta que o jornal britânico Guardian publicou esta semana a notícia sobre um músico aborígene, Geoffrey Gurrumul Yunupingu, vítima de negligência médica num hospital em Darwin, reabrindo o debate sobre as desigualdades no tratamento de aborígenes relativamente a outros australianos.

Para muitos aborígenes um passo importante no processo de pacificação nacional foi dado em 2008 quando, pela primeira vez, um primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, dirigiu um pedido nacional de desculpas às vítimas das “Gerações Roubadas”. Mas o caminho é longo e há feridas que tardam em sarar.

Quando, na semana passada, visitámos Uluru e outros locais com ligação umbilical às comunidades locais, percebemos que a cultura aborígene é exaltada, apreciada e respeitada. Também inúmeras galerias de arte e museus nas principais cidades valorizam fortemente as curiosas e intensas obras produzidas por artistas aborígenes, muitas delas transaccionadas a preços bem elevados. Mas no dia-a-dia, longe dos meios artísticos e dos lugares sagrados tornados atracções turísticas, a realidade é diferente.

image (21)

imageQuadro no The Ian Potter Museum of Art, em Melbourne

Em Alice Springs somos avisados, pela primeira vez na Austrália, do perigo dos assaltos e de caminhar à noite na rua. Mais tarde, deparo-me com uma cena representativa da desconfiança que paira sobre as comunidades aborígenes. Num supermercado uma cliente aproxima-se de uma funcionária e aponta para uma criança acompanhada de uma senhora mais velha junto de uma caixa de pagamento automático. O menino tem calçadas umas galochas que trazem a etiqueta de fora com o preço e percebo que é isso que motiva o aparato de já quatro funcionários que ficam a controlar. Sem se aperceber de nada disto, está longe e de costas, a senhora – presumo que Avó da criança – vai colocando os produtos para pagar enquanto o menino descalça naturalmente as botas e coloca-as perante o visor. As funcionárias vêem a sua desconfiança sossegada e dispersam, enfim.

image

Quando ontem parámos num área de piquenique em plena estrada, passou por nós um carro muito velho, com um pneu da frente furado, a transportar mulheres e homens aborígenes de idade avançada. Encostaram e tentaram entrar numa loja da estrada mas não lhes abriram a porta. Não consigo tirar os olhos deles e tenho consciência que foi apenas a insistência do meu olhar que motiva uma das senhoras a vir ter connosco. Apresenta-se e fica a olhar-me. Diz-me que temos “a mesma avó” por causa do meu nariz e do meu cabelo. Elogia-me o vestido de inspiração africana e diz-me que também pinta aqueles motivos. Brinca com a Mia. Pede-me depois algumas moedas e abraça-me o corpo demoradamente quando correspondo.

Entretanto, os companheiros aproximam-se também. Uma das pessoas quer boleia para Tenant Creek, a 160 quilómetros e onde, por acaso, planeávamos ficar a dormir. Pedem ainda que lhes compremos cervejas e entregam-me, para o efeito, 90 dólares. Pergunto por que não vão eles mesmo fazer a compra. Respondem que não podem, só lhes vendem um conjunto de seis cervejas por cada Bilhete de Identificação, acrescentam que os brancos podem comprar o álcool que quiserem, quando quiserem, mas eles não, e como vivem ali perto já esgotaram a sua quota.

Mais tarde pesquiso sobre o assunto e confirmo que existe, de facto, uma polémica política de restrição de venda de bebidas alcoólicas no Território do Norte que visa criar obstáculos ao consumo por parte dos aborígenes. É uma política que vem de longe e poderá ter várias razões, mas nenhuma apaga a sua génese marcadamente colonialista, paternalista e discriminatória. Ainda não sei nada disto quando lhes vou comprar as cervejas, a mim abrem-me a porta da loja e ninguém me pede rigorosamente nada. Encaixo-me no carro atrás ao pé da Mia, que entretanto adormece e seguimos viagem.

image
Pelo caminho a senhora a quem damos boleia vai contando histórias do seu povo, de como é bom para fortalecer os bebés deitá-los na terra que as formigas tecem em pináculos impressionantes, das plantas que se encontram no mato e servem para curar doenças, da lenda dos ovos da serpente que dizem ter dado origem ao lugar Devil’s Marbels (“os berlindes do diabo”) por onde passamos, dos tempos em que esteve presa em Darwin, da luta com a segurança social pela custódia de uma filha, mostra pelo telemóvel fotografias das netas. Rimos juntos quando me diz que comprei “XXXX Gold, uma cerveja de brancos” e que os aborígenes dali só bebem a marca “VB”. Na chegada ao destino pede para ficar num hospital e despedimo-nos.

image

A acompanhar esta nossa viagem pela estrada que divide (ou une?) um país/continente, está a música que trouxemos guardada no telemóvel. Temos tido como companhia de viagem as eternas boas vibrações de Bob Marley, a pujança de Nina Simone  e outros dois génios, os que nos fazem sentir um orgulho imenso em falar a língua portuguesa: Chico Buarque e Zeca Afonso.

Quilómetros de estrada ao som de músicas de protesto, liberdade, redenção, poder, repressão, opressão, solidariedade. Canções de luta, vindas de tempos, vozes e geografias diferentes. Sons que ecoam no deserto australiano e que nos vêm lembrar que há sempre lutas que continuam, mesmo nos locais que, pela superfície bonita, desenvolvida e luzidia, nos parecem mais improváveis.

E como este texto era para ser sobre música, termino com a música preferida da Mia entre aquelas que nós vamos ouvindo. Nos últimos dias o pedido tem sido sempre o mesmo, várias vezes por dia. “Mãe, Pai! Agora aquela dos “meninos que vão correndo ver o Sol chegar…”.

Desejos de um feliz Abril. Para todos.

Um pensamento sobre “Banda sonora para um Abril na estrada

  1. Estou a adorar a viagem :* Bjinhos

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s