Austrália: Uluru e o Centro Vermelho

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Desde Angola que não víamos uma terra tão vermelha como aquela que vimos no Centro Vermelho, o interior profundo e onde bate mais forte o coração da Austrália aborígene. Aqui vivemos a verdadeira aventura australiana, muitos quilómetros de estrada, alguns de caminhadas e… terra vermelha. Foi de braços abertos que começámos a viagem de uma vida a Uluru e de braços fechados terminámos. O Centro Vermelho da Austrália ficou em nós.

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Ir a Uluru estava nos nossos planos desde o início mas não deixa de ser uma odisseia. Situa-se no centro de um país gigante e fica longe, seja de onde for o ponto de partida, mas vir à Austrália e não ver “a rocha” estava fora de questão. Voámos de Melbourne, depois de termos percorrido a Great Ocean Road, em direcção a Alice Springs. Ainda no avião, vou à janela e começo a sentir o entusiasmo habitual que me provocam os desertos. A paisagem inacreditável, imensa, árida e vermelha. Estávamos a chegar ao meio do nada.

Como andámos a acampar a maior parte do tempo não tínhamos quase rede ou acesso a internet e, por isso, chegámos a Alice Springs sem absolutamente nada reservado o que nos conduziu a um pequeno contratempo. No aeroporto quisemos alugar uma caravana para ir dali até Uluru mas estavam esgotadas, apenas conseguimos um automóvel para o dia seguinte.

Foi, no entanto, uma oportunidade para irmos para a cidade num táxi conduzido por um imigrante indiano de Kerala que nos fez perceber que a abertura da Austrália aos estrangeiros é uma realidade, sim, mas condicionada. O taxista indiano vivia em Belfast, na Irlanda, quando decidiu concorrer a um visto para trabalhar na Austrália. Sonhava ir para a solarenga e costeira cidade de Brisbane mas acabou por ser colocado bem longe, ali, no meio do deserto. “Isto é horrível, não gosto nada…mas Uluru…vão lá, não é?! Uluru é uma beleza. Durante o dia parece que está para ali, adormecida, mas ao nascer e ao pôr do Sol…ahhhh…digo-vos aquela pedra…ganha vida!”. Era um bom prenúncio.

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Sem carro, sem caravana e com muitas tralhas decidimos ficar numa pensão para mochileiros. Tivemos sorte. O australiano proprietário do espaço tem padrasto português e saudades enormes da comida portuguesa. “Aqui, esqueçam, nunca vão encontrar nada sequer parecido!”. Para dormir, ao invés dos beliches que marcámos deu-nos um autocarro convertido em quarto que fez as delícias da Mia. Deu-nos também óptimas dicas sobre os lugares onde ir e, como íamos acampar, ofereceu-nos (!) colchões para dormir e cobertores para enfrentar as temperaturas baixas da noite no deserto. Ainda nos deu outra boa dica: ir à sucursal do Salvation Army onde poderíamos comprar em segunda mão material e equipamento que podia ser útil no campismo (geleira, fogão a gás, etc). Cinco estrelas!

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No dia seguinte, apanhámos o carro alugado, fizemos 400 quilómetros para sudoeste no deserto australiano. A terra é tão vermelha que provoca um fenómeno fascinante: se houver nuvens, o céu aquire uma tonalidade roxa. Foi já ao final do dia que chegámos a Uluru, também chamado de Ayers Rock, um monólito situado no Parque Nacional de Uluru-Kata Tjuta perto da pequena cidade de Yulara, onde dormimos.

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Em Uluru é o nascer e o pôr do Sol que movimenta as multidões de turistas de um lado para o outro à procura dos melhores miradouros e ângulos fotográficos. E é bem verdade que a coloração da rocha varia muito consoante as horas. Durante o dia aparece-nos com uma tonalidade entre o ocre e o acastanhado acompanhado das sombras mais escuras. Quando fica sob os holofotes do Sol, ilumina-se de cor de laranja ganhando um tom avermelhado antes de se apagar na penumbra total. Ou “adormecer”, como poeticamente diria o taxista indiano.

Os entendidos dizem que o brilho vermelho ao amanhecer e ao pôr-do-sol é “culpa” de um mineral chamado feldspato que existe no arenito que constitui a rocha. Mas dito assim, bem, a ciência às vezes pode ser um pouco empata-poesia.

Agora a resposta a uma pergunta que me têm feito: Uluru vale a viagem de tantos quilómetros?

Quando aparece no horizonte, diante dos nossos olhos, é a visão empolgante de algo que já vimos muitas vezes, em fotografias e em filmes, e estamos finalmente a presenciar ao vivo. Mas quando nos dedicamos a conhecer o lugar – o centro para visitantes em Uluru é óptimo para tal -mais do que a beleza do local é o seu significado que cativa.

Uluru é mais do que uma pedra, é um lugar com um lado espiritual intenso, místico para o povo Anangu, berço de culturas muito antigas e enigmáticas, raiz de gerações sucessivas que, aqui inspiradas, continuam a produzir uma arte abstracta impressionante, um sítio de texturas surpreendentes e de cores que seduzem as câmaras e os captadores de imagens.

Para conhecer melhor o território, as suas histórias e particularidades existem tours culturais – algumas gratuitas – conduzidas por guias locais Anangu que explicam, por exemplo, que não se deve subir à rocha. Para o povo Anangu, Uluru é um lugar sagrado, cheio de significado para os seus antepassados e por isso não deve ser pisado. Subir à pedra não é proibido porque o turismo assim o obriga mas os pedidos dos Anangu são recorrentes: “Não subam a Uluru. Nós não o fazemos!”. Pareceu-nos óbvio seguir o conselho. Quando vamos voluntariamente a casa dos outros devemos seguir as suas regras.

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Por aqui passeámos pelos vários trilhos que nos levam a fendas, cavernas com pinturas antigas e poços de água onde nos demorámos, como a lagoa de Mutitjulu. A Mia vai fazendo perguntas sobre tudo e mais alguma coisa. “Aqui há dingos?”, “Alguém mora aqui?”, “Quem fez estes desenhos na pedra?”. Felizmente os trilhos estão cheios de placas com muita informação à qual vamos recorrendo para satisfazer a curiosidade da pequena.

Foi muito giro explicar à Mia que aqueles desenhos nas paredes das grutas eram uma forma dos antigos “escreverem livros” e “contarem histórias” que passavam de geração em geração. Com desenhos na rocha explicavam aos filhos como se proteger dos animais selvagens, como caçar para comer, onde encontrar água.

O difícil foi justificar por que ralhámos tanto com ela sempre que tentou pintar as paredes lá de casa… Foi em Uluru, a olhar em simultâneo para as paredes pintadas e para a Mia, que fiquei a pensar que pintar paredes deve ser um instinto básico de sobrevivência e de comunicação que nasce connosco, talvez reminiscências dos tempos em que vivíamos em cavernas que não foram ainda totalmente suprimidas.

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É possível que se lembrem que o cenário de Uluru ficou conhecido por razões mais tristes quando uma bebé desapareceu de uma tenda quando os pais acampavam perto de Uluru. Desde o início a mãe disse que a criança tinha sido levada por um dingo (espécie de cão selvagem do deserto australiano), mas acabou por ser acusada de ter morto a filha no julgamento mais famoso da história australiana, e que originou o filme “Um grito de coragem” protagonizado por Meryl Streep.

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Perto de Uluru, cerca de 30 quilómetros (o perto e o longe aqui são muito relativos dada a vastidão deste território) fica Kata Tjuta, um grupo de formações rochosas (também chamadas de Olgas) que me impressionou ainda mais que Uluru e fez lembrar, pelo formato e disposição, as magníficas Pedras Negras de Pungo Andongo em Angola.

Em Kata Tjuta é possível caminhar por entre 36 pedras (alguém as terá contado) que formam entre si vales profundos e encostas abruptas. Foi aqui que tivemos um dos melhores momentos da viagem ao Centro Vermelho. Acordámos antes das seis da manhã para ir ver o nascer do Sol a Uluru e seguimos depois para Kata Tjuta para fazer algumas das caminhadas. Começámos pelo Vale dos Ventos, um trilho de mais de sete quilómetros a andar por montes e vales, a subir rochas, a caminhar em cima de pedras por onde um dia já correram as águas de rios. A ideia era ir até ao primeiro miradouro e voltar para trás mas a Mia estava com toda a genica e tão contente por poder subir pedras e mais pedras que fomos continuando.

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Chegados ao segundo miradouro tinhámos a hipótese de voltar para trás e fazer um caminho que já conhecíamos, de 45 minutos até ao carro, ou continuar o percurso e dar a volta completa por mais hora e meia. Adivinham o que fizemos? Claro, ao invés do trilho bonito e que já conhecíamos, optámos por um percurso pouco interessante e debaixo de um sol já intenso, só para ter o gosto de completar os quase oito quilómetros de caminhada. Fica para a posteridade (e para as costas do Francisco que carregou a Mia às cavalitas na longa recta final).

Chegámos ao automóvel prontos para ir embora mas ainda não estávamos satisfeitos… Resolvemos ir indagar um segundo trilho. Sim, abusamos um bocado da paciência e boa vontade da nossa miúda. Mais dois quilómetros e meio. Mas que visão encontrámos… Um desfiladeiro feito de poderosas (e geladas, apesar do calor intenso) pedras vermelhas.

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Os dias em Uluru e no Centro Vermelho fazem-se das “corridas” para ver o nascer e o pôr do Sol. Os melhores miradouros estão assinalados e todos correm para lá, de máquinas fotográficas em punho, cadeiras portáteis, “cerveja e tremoços”.  Não está mal, especialmente os últimos itens, mas no terceiro dia em Uluru quisemos escapar às multidões. Parámos o carro na berma da estrada num sítio onde não era proíbido, subimos a uma duna isolada e ficámos à ver os últimos raios de Sol a iluminar a “pedra gigante” enquanto pai e filha brincavam com pauzinhos na terra vermelha. Foi o melhor final de tarde que tivemos em Uluru.

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Daqui partimos para o Parque Nacional Watarrka onde fomos encontrar o Kings Canyon. Os seis quilómetros à volta do abismo eram um passeio que nos tinha sido altamente recomendado e não o queríamos deixar de fazer. A subida íngreme e feita de pedras foi o ponto alto para a Mia que adora estas partes mais complicadas. Pelo caminho encontrámos sempre gente que fica surpreendida com a destreza e boa disposição de uma miúda tão pequena a caminhar por estes terrenos. Por coincidência, chegámos a cruzar-nos com as mesmas pessoas em Kata Tjuta e depois no Kings Canyon, fazendo com que ficassem ainda mais curiosos com a resiliência deste palmo e meio de gente. Mas na verdade não somos os únicos “doidos”, há muitas famílias a fazer estas mesmas caminhadas…

O caminho faz-se caminhando e o Centro Vermelho da Austrália pareceu-nos um cenário demasiado intenso e enriquecedor para não aproveitar em toda a extensão que nos fosse possível. Missão cumprida.

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Dicas práticas:

  • Alojamento em Uluru: Quem vai a Uluru fica no Ayers Rock Resort, na pequena cidade de Yulara, que tem opções para todos os gostos e bolsas, desde parque de campismo – onde ficámos – até hotéis de cinco estrelas. Tem também algumas lojas, galerias de arte, supermercado e restaurantes. Ver aqui.
  • Alojamento em Alice Springs: Existem várias opções. Partilho a nossa pensão de mochileiros Alice’s Secret Travellers Inn porque foi um belo prelúdio para a viagem ao Centro Vermelho.
  • Tours: Existem várias empresas que fazem tours de dois ou mais dias a partir de Alice Springs e levam os turistas aos pontos mais importantes.
  • Aluguer de automóvel ou caravana: Quem quiser ir por conta própria e alugar um carro ou caravana deve pensar fazê-lo com alguma antecedência dependendo da época do ano. As companhias de aluguer Apollo, Britz, Juicy, Wicked são boas opções mas esgotam. Outra questão importante é ver a política de quilómetros. Há empresas rent-a-car que têm um limite de quilómetros por dia e outras em que é ilimitado. É melhor fazer contas ao percurso que se quer fazer e o número de dias disponíveis. No nosso caso pagámos baratíssimo pelo aluguer do carro mas uma bela tranche suplementar por sermos papa-quilómetros.

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  • Caminhadas: Mais do que o calor e a eventual dificuldade do percurso, o maior obstáculo às caminhadas são as…moscas! Sempre em cima de nós. Vimos muitas pessoas com umas redes à volta da cabeça e é capaz de ser uma boa ideia. Essencial mesmo é muita água, protector solar, chapéu e calçado confortável.
  • Dingos: Vêem-se muitos na estrada e chegámos a vê-los de perto à volta dos carros e das tendas no parque de campismo no Kings Canyon. As regras são: não nos aproximarmos, não lhes dar comida, não deixar comida nas tendas, e lembrar que são cães que parecem inofensivos, e em geral até são, mas também são animais selvagens.

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6 pensamentos sobre “Austrália: Uluru e o Centro Vermelho

  1. O meu coração enche-se de alegria ao ler os teus textos e ao ver as fotografias fantásticas. Há mesmo coisas maravilhosas a acontecer no mundo! 😀

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    • Ana, obrigada! E o meu coração de alegria cheio por estes pensamentos bonitos. Há mesmo coisas maravilhosas, em vários pontos do mundo 🙂 Beijinhos

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  2. E com isto tudo, já lá vão quase 3 meses !!!!!
    Estou a adorar, mas não era viagem para mim, por causa das caminhadas 😦 Minhas ricas pernas, que ao fim de 5 minutos já não as sinto 😦 😦 Bjs grandes para os três e continuem porque estou a adorar. Isso é realmente de cortar a respiração de lindo que é …

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  3. Gina Cláudia Lemos

    Leio-te devagar, como merece o paladar das palavras sentidas. Chegada àquelas pedras vermelhas fez-me pele de galinha. Um abraço tríplice!

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