Glaciar Franz Josef: subida ao reino do gelo

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Quando nos preparávamos para vir até à Nova Zelândia fomos pedindo dicas a amigos e conhecidos para traçar o nosso itinerário. As respostas eram quase sempre as mesmas: “Ah, a Nova Zelândia, o meu país preferido…”. E que sítios recomendam? “Qualquer um…na Ilha Sul, sobretudo, basta andar de carro e todos os lugares são lindos”. Na altura pareceu-nos uma descrição um pouco vaga mas estando aqui entende-se o que queriam dizer.

Sempre que entramos na caravana para fazer mais um pouco de estrada a vontade é a de parar em cada curva para observar e fotografar. Há sempre um lago, uma montanha, um prado, uma cascata, uma praia, um vale, um arco-íris, um fiorde…É, de facto, um país de uma beleza natural impressionante, diversa e constante.

Foi por isso com alguma expectativa que nos aproximámos do Parque Nacional Westland, na região oeste da Ilha Sul da Nova Zelândia, onde ficam dois famosos glaciares e principais atracções turísticas: o Glaciar Franz Josef e o Glaciar Fox.

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Não é permitido subir de forma independente aos glaciares pelo risco de derrocadas e, por isso, para quem quiser aventurar-se numa caminhada mais longa e distante, a melhor forma é ir numa visita guiada. Várias empresas possibilitam também subir ao glaciar num helicóptero e depois caminhar durante algumas horas por entre o gelo, explorar caves e observar as formações dos blocos de gelo. Era mesmo isto que queríamos fazer.

É uma experiência única na vida e, também por isso, uma extravagância tendo em conta os preços praticados na pequena vila de Franz Josef, que mais parece um heliporto pela quantidade de helicópteros a cruzar os céus glaciar-acima-glaciar-abaixo.

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Logo que chegámos fomos avisados que várias expedições tinham sido canceladas por causa do mau tempo mas que haveria, eventualmente, uma aberta para o dia seguinte. Pensámos se valeria a pena fazê-lo e quem, de nós os dois, o faria visto a Mia estar excluída por razões óbvias. Acabámos por fazer os dois, cada um no seu dia.

No dia seguinte, despedi-me da Mia a dizer que ia andar de helicóptero até ao cimo da montanha e que ela não podia ir porque era muito alto e fazia muito frio, um mundo de gelo, tal como o sítio para onde foi morar a Princesa Elsa no filme Frozen. Ela percebeu mas deixou-me nas instalações da Franz Josef Glacier Guides num pranto, não sei se porque teria medo que eu congelasse lá em cima ou porque imaginou um castelo de gelo majestoso como o do filme e ela a ter de ficar em terra…

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Já na companhia do grupo com quem iria subir ao glaciar (as nacionalidades eram variadas entre norte-americanos, canadianos, holandeses, indianos e chineses, e eram quase todos muito jovens) o guia explicou-nos o que iríamos fazer e deu-nos o material necessário: casacos, luvas e os bizarros crampons (umas armações metálicas com uns “dentes” pontiagudos como facas que se adaptam ao tamanho do nosso pé e se calçam por cima das botas para andarmos no gelo sem escorregar. De repente lembrei-me da Sharon Stone, sabe-se lá porquê…).

IMG_3547Os indispensáveis crampons para andar no gelo

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Fomos a pé até ao heliporto e seguimos num voo rápido até ao vale. A partir daí, o helicóptero começou a ziguezaguear pelos céus enquanto à nossa frente se abria um manto branco, cascatas de uma massa compacta a descer por um vale, como um rio de gelo em direcção ao Mar da Tasmânia, que fica a cerca de 20 quilómetros. Sobrevoámos depois a área imensa onde o gelo vai acumulando-se em blocos enormes fragmentados e gretados formando esculturas impressionantes. O frio e os desportos de Inverno nunca me seduziram por aí além mas ver todos aqueles pináculos de neve e gelo em tonalidades entre o branco e o azul é algo de mágico.

O helicóptero desceu e poisou depois em plena “planície” de gelo. Colocámos os crampons e começámos a nossa caminhada. À medida que íamos andando o guia, de picareta em riste, ia traçando o caminho, aperfeiçoando as linhas e degraus anteriormente criados, martelando o gelo. Todos os guias fazem o mesmo para facilitar o trabalho aos grupos de visitantes que vêm a seguir. O passeio inclui a passagem por fendas muito estreitas e mais altas do que nós onde é preciso andar com um pé atrás do outro, como se estivessemos a rastejar de pé. Podemos também ir observando os pináculos e outras formações de gelo impressionantes como caves e pontes.

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O assunto não será muito bem-vindo numa vila que vive de levar turistas para ver o glaciar mas enquanto estive lá em cima foi impossível não pensar no impacto que terão todos os ruidosos e numerosos helicópteros a sobrevoar o Franz Josef com a propagação de som inerente e as centenas de pessoas que diariamente, e durante todo o ano, visitam o glaciar. Não causará tudo isto uma mudança no rumo normal da natureza? Ou os danos não serão assim tão impactantes? Quando estamos no meio daquela imensidão de gelo e de natureza em estado puro (e sólido) parecemos realmente insignificantes… Mas seremos mesmo? Não consegui respostas conclusivas.

Mas, ainda mais importante do que tudo isso, há a questão das alterações climáticas. Estima-se que há 15 ou 20 mil anos os glaciares Franz Josef e Fox chegavam ao mar. Desde aí têm-se verificado períodos de avanços e retrocessos, sendo que, actualmente, o glaciar está novamente a retrair. Ou seja, o gelo derrete mais rápido do que avança e parece que a zona terminal do glaciar está cada vez mais perto da montanha. “A minha perspectiva, e sei que é pessimista, é que daqui a menos de duas décadas o terminal do glaciar vai estar no sítio onde nós estamos agora. O que quer dizer que já não vamos estar aqui e eu perco o meu emprego…”, disse com algum humor à mistura o guia, mostrando o carácter instável e periclitante tanto da natureza como da empregabilidade no sector do turismo.

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Apesar de todos os grupos de turistas que vão chegando e saindo do glaciar nos helicópteros é possível sentir-nos rodeados e esmagados – apenas em sentido figurado, felizmente – por toda aquela imensidão de correntes de gelo. Durante a minha caminhada em pleno glaciar, fez Sol, choveu, nevou e até presenciei uma mini-avalanche. É algo digno de registo. Primeiro ouvimos um estrondo, como se fosse um trovão, e depois, quando nos virámos para as montanhas percebemos que estava a acontecer uma derrocada do lado oposto aquele onde nos encontravámos. Talvez por efeito da chuva ou do Sol, ou de ambos, um pedaço gigante de gelo tinha perdido a base de sustentação, partiu-se e rolou pela montanha abaixo, pulverizando-se em vários bocados. Impressionante e inesquecível. Aquele ruído e a visão da natureza em movimento.

Foi a seguir a este momento que pensei que para mim o Glaciar Franz Josef estava visto e era mais do que horas de voltar para o helicóptero rumo “a casa”. Ao contrário da Elsa, a Rainha do Gelo que a Mia tanto gosta, a mim o frio, como dizer… incomoda-me um bocado.

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3 Curiosidades sobre o Glaciar Franz Josef:

1. Uma lenda local, de origem maori (povo nativo da Nova Zelândia), conta que terá sido neste lugar que uma jovem perdeu o seu grande amor depois de este ter caído enquanto subia o cume da montanha atrás dela. As lágrimas da jovem congelaram com o frio da montanha e deram origem ao glaciar. Em maori o glaciar chama-se Ka Roimata o Hinehukatere, “As lágrimas de Hinehukatere, a rapariga-avalanche”.

2. Um glaciar na Nova Zelândia com nome de imperador europeu? O primeiro explorador europeu do glaciar foi o austríaco Julius Haast que resolveu homenagear o imperador do seu país, Francisco José I da Áustria, e tentar assim patrocínio para outras explorações geológicas no país. Parece que terá tido êxito, além de que o nome ficou até hoje.

3. O glaciar tem como particularidade descer dos Alpes do Sul até apenas 240 metros acima do nível do mar por entre floresta húmida temperada.

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3 pensamentos sobre “Glaciar Franz Josef: subida ao reino do gelo

  1. És mesmo doida !!! Nem que me pagassem em Dólares eu ia nessa 😦

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  2. Fiquei com frio só de ver as fotos! Isso ao vivo ainda deve ser mais espetacular! Que maravilha…

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  3. Maria Julia Monteiro Jaleco

    Brrrr, que frio! mas que beleza(s), também!

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