Dia da Criança: 1 de Junho no mundo

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Amanhã é Dia da Criança. Tinha planeado descrever um dia na vida de uma criança a viajar à volta do mundo, a nossa criança, alegre na sua condição, como deveriam ser todas. Acabei a escrever sobre a vida de outras crianças à volta do mundo, num dia qualquer. Este é – será, continuará a ser – um blogue sobre viagens, pessoas, países, famílias, o mundo. E, por tudo isso, nem sempre os textos são só felizes…

1. O relógio marca as seis da manhã quando Argo, 9 anos, sai de casa, no leste da Ilha de Java, Indonésia e vai para a escola. No caminho passa por uma plantação de tabaco. Por vezes, é demasiado irresistível para Argo não desviar-se do caminho e ir ganhar algum sustento para si e para a família. O cultivo continuado de tabaco com o recurso a pesticidas e outros químicos provoca-lhe naúseas, vómitos e tonturas, tudo sintomas de envenenamento devido à absorção cutânea de nicotina. Os efeitos a longo prazo de uma exposição deste nível ainda não estão estudados. É provável que Argo acabe por desistir da escola para ajudar a família e nunca realize o sonho de ser médico. Argo faz parte dos 168 milhões de crianças que são forçadas a trabalhar em todo o mundo, segundo a Organização Mundial do Trabalho.

2. De manhã quando acorda, Abdulla, 7 anos, vai sozinho para a fila para tomar banho, depois segue para a fila para receber uma muda de roupa e vai ainda para uma outra fila onde lhe entregam um prato de comida. Abdulla ainda acorda a pensar que está na sua casa, na Síria. E é quando acorda que começa o pesadelo: num dia tinha uma casa onde vivia com os pais e os irmãos, no dia a seguir não tinha família, nem país. Fugiu dos bombardeamentos que destruíram a sua cidade, onde ele e os amigos costumavam lançar e correr atrás de papagaios de papel ao final da tarde. Abdulla não sabe quando vai voltar a lançar um papagaio de papel. Também não sabe até que idade vai viver no campo de refugiados de Al Zaatari, na Jordânia, ou quando deixará de ser uma das cerca de 25 milhões de crianças refugiadas e deslocadas em todo o mundo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

3. O Sol do meio dia queima no Namibe quando Carlos, quase dois anos, embrulhado num pano colorido e embalado pela mãe, já caminhou 20 quilómetros. A mãe de Carlos leva um alguidar à cabeça e o filho às costas para ir buscar água a um poço. A mãe de Carlos já perdeu dois filhos pequenos. Podem ter morrido de diarreias ou de febre amarela ou de paludismo… As enfermeiras não souberam bem dizer. Por isso, a mãe de Carlos não sabe, e também não sabe se Carlos irá completar os dois anos de idade. Carlos vive no país onde morrem mais crianças, uma em cada seis que nascem vai morrer antes de completar os cinco anos, segundo a UNICEF. Além dos milhões afectados pela subnutrição e outras doenças que podem ser prevenidas.

4. Samnang atravessa descalça dez quilómetros pelos arrozais do Cambodja para ir à escola. Vai a correr e diverte-se pelo caminho na companhia do seu próprio reflexo nas águas do rio Mekong. Quando chega, cansada mas feliz, e se senta na carteira os rapazes gozam e comentam: “Tu és rapariga. Estás aqui a fazer o quê? Queres estudar para quê?”, e abanam a cabeça. Samnang quer estudar para ser professora e ensinar Matemática e História a rapazes e raparigas, quer ser capaz de lhes responder a muitas dúvidas e tornar desnecessárias algumas questões.

5. A tarde vai a meio, em Londres, Mabel, 5 anos, já saiu da creche e está em casa a andar no baloiço que o pai pendurou no tecto do quarto. Enquanto isso, a mãe de Mabel está a ler um artigo na internet sobre vários casos em que os serviços sociais ingleses retiraram crianças aos pais e, sem o seu consentimento, colocaram-nas para adopção. Algumas das vezes porque as crianças disseram na escola que os pais lhes batiam ou chegaram ao hospital magoadas depois de uma queda. A reportagem refere um complexo esquema de vantagens financeiras para serviços sociais e famílias de acolhimento por cada criança reencaminhada para adopção. A mãe de Mabel não sabe o que pensar sobre o assunto mas quando termina a leitura telefona ao marido, e diz-lhe que deviam reforçar as ferragens que sustentam o baloiço de brincar da filha.

6. São dez da noite na Nigéria. Zara, 14 anos, está a tremer, encolhida, com a cabeça entre as pernas e as mãos nos ouvidos. No acampamento onde vive, na Floresta de Sambisa, ouve os grunhidos das hienas ali à volta em busca de carne putrefacta para se alimentarem, mas nada a assusta mais do que os risos cruéis dos homens que a têm em cativeiro. Os terroristas do grupo Boko Haram raptaram-na de Chibok, a aldeia onde vivia, em 2014, e diariamente cometem atrocidades sem nome porque um código penal pode tipificar crimes mas não poderá nunca devolver essências perdidas.

7. Na foto vejo a Mia com o mundo nas mãos e eu trago o coração esmagado nas minhas quando vejo o mundo.

Todas estas histórias são ficcionadas. Ou não são?

3 pensamentos sobre “Dia da Criança: 1 de Junho no mundo

  1. 😦 😦 😦

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  2. Maria Julia Monteiro Jaleco

    A Mia vai salvar o Mundo… com milhões de outras crianças, vocês vão ver!

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