A máquina de fazer arco-íris

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Há uns dias, andava eu em deambulações pela internet, passou-me pelos olhos um artigo que começava com a pergunta: “Já viu os pés de uma bailarina?”. As imagens que acompanhavam o texto estavam longe da beleza e delicadeza que associamos a alguém que rodopia em cima de um palco. Até porque as bailarinas devem ser dos seres mais admirados à face de terra: todas as meninas quando crianças devem ter sonhado, pelo menos uma vez, ser bailarinas e, já na idade adulta, é difícil não manter o espanto pelo porte altivo e graciosidade.

Olhar para os pés de uma bailarina é perceber que, por detrás daquela suavidade, há uma força estóica e uma capacidade de resistência inimagináveis, especialmente quando a nossa tendência é deter-nos na superfície. Neste caso os corpos franzinos, os gestos elegantes, os rostos perdidos num lugar só delas. Será que a imagem de uma bailarina perdeu o encanto só por que lhes vi os pés? Lembrei-me disto quando fomos a Punakaiki.

Saímos do gelo-azul neve-branca do glaciar Franz Josef subindo pela costa oeste da Ilha Sul da Nova Zelândia. Punakaiki era um ponto no mapa e no meu guia falava de umas rochas de formato achatado – as Pancake Rocks, “rochas panquecas” – e foi o nome que me fez querer lá ir. Pensei que a Mia era capaz de gostar.

Chegámos ao final da tarde e falámos em seguir um pouco mais para a frente, ganhando tempo de viagem e ficando já mais perto do Parque Nacional Abel Tasman, o nosso próximo destino. Mas insisti para que ficássemos por ali, começava a anoitecer. De qualquer forma, também não iríamos adiantar muito mais e, logo de manhã, víamos num instante as tais “panquecas” antes de seguir viagem. Assim fizemos. Nessa noite dormimos literalmente debaixo da ponte, estacionando a nossa caravana num local gratuito mas com vista para a Foz do Rio Punakaiki que ali desagua no Mar da Tasmânia.

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De manhã seguimos para a nossa visita sem grandes expectativas. O lugar consiste numa série de rochas que parecem empilhadas e achatadas umas por cima das outras – daí o nome de “panquecas”. Tudo obra, engenho e arte da natureza. Durante milhões de anos areias, calcários, arenitos e pequenas criaturas marinhas foram sendo comprimidos, sujeitos depois a sismos e à acção do vento e da chuva, dando forma a penhascos e ravinas.

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Na maré cheia as ondas pujantes vindas do mar avançam com toda a força pelos tunéis estreitos que existem nas rochas e sobem através dos poços verticais, jorrando colunas de água que explodem no céu. A força era tanta que, mesmo estando no passadiço que percorre os vários penhascos, somos atingindos pelos salpicos e até banhos de água. A Mia estava a delirar com tudo aquilo. Ficava perto de mim à espera que viesse a onda e quando a coluna de água começava a subir, ela fugia. ” Mãe, não quero ir embora! Isto é espectacular!”, e continuava a brincar de fugir e voltar para as explosões de espuma e água.

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IMG_3595 (2)Ups…

Além de termos estado em Punakaiki na maré cheia, uma sorte, tivemos também um dia de Sol, uma sorte a dobrar, o que significou que cada vez que uma onda subia, aparecia à nossa frente um esplendoroso arco-íris. E como havia muitas ondas e muitos buracos nas rochas, para cada lado que olhávamos estava um arco-íris, alguns em simultâneo. Por que chamam a este lugar “panquecas”? Devia chamar-se Rainbow Machine (máquina de arco-íris).

A manhã que passamos em Punakaiki foi o equivalente a assistir a uma dança de várias forças da natureza, um espectáculo de uma beleza tal que parece entrar directamente na nossa corrente sanguínea e provoca-nos emoção, riso, perplexidade.

É certo que aqueles arco-íris saltitantes e mágicos são fruto do nosso olhar. Uma ilusão óptica criada em nós pela conjugação de factores que se concentram ali em determinados momentos, ou a vida toda: a luz, a água, o oceano, a erosão ao longo de milhões de anos, a força da onda contra a rocha, as marés.

Podemos continuar a apreciar algo belo e fascinante mesmo ficando a saber o que está por detrás? Talvez ainda mais, porque conhecemos as forças brutais, únicas e irrepetíveis que lhe deram origem. Nos arco-íris como nas bailarinas.

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Um pensamento sobre “A máquina de fazer arco-íris

  1. Nem sei que te diga !!! Lindo de mais ……..

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