7 Dicas para caminhar com crianças

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Na sequência de alguns textos que aqui escrevi sobre caminhadas que fizemos na Austrália e na Nova Zelândia, recebi alguns contactos de pais a perguntar como fazemos “para a Mia andar tanto”. Decidimos partilhar algumas dicas que podem ser úteis.

Quando começámos a planear o itinerário da nossa volta ao mundo tornou-se claro que, muitas das experiências que queríamos ter, só seria possível a caminhar e aí surgiram as dúvidas. Ela já não é a bebé que levávamos às costas numa mochila para percorrer os Lagos Plitvice na Croácia,  será que vai conseguir andar pelo seu próprio pé tantos quilómetros como queremos?

Só experimentando é que saberíamos e tem sido uma prova superada. Além dos benefícios óbvios para a saúde, caminhar permite às crianças a descoberta da natureza, estimula a imaginação, reforça laços familiares , cria memórias e cumplicidades. Por tudo isso, tem sido um dos nossos programas preferidos nesta viagem.

Aqui ficam as nossas regras/dicas que têm resultado quando caminhamos com a nossa criança de três anos e meio.

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1. Começar a caminhada de manhã cedo

Regra geral as crianças acordam com toda a energia e estão mais bem-dispostas de manhã, por isso, quanto mais cedo começar a caminhada aumentam as chances de não entrar pelo período de descanso, caso a criança ainda faça a sesta. O que fazemos é começar cedo e estar de volta antes da hora de almoço e da sesta ou, se a caminhada for de um dia inteiro, voltar antes do pôr do Sol.

2. Apalpar terreno e entrar no ritmo

É recomendável pesquisar primeiro e obter uma boa ideia do tipo de terreno, do clima, de qual a extensão exacta e duração que levará a percorrer. Nada de tentar bater recordes pessoais. Uma pessoa a caminhar normalmente percorre 3 quilómetros numa hora mas esta estimativa altera-se quando vamos com crianças. Elas querem e precisam de parar, seja para descansar, apanhar folhas e pauzinhos, cheirar as flores ou ouvir um pássaro no ninho. Às crianças pouco interessa o destino final, o mais importante é o caminho (não devia ser assim para todos nós?).

Assim, é aconselhável ir aproveitando as pausas para actividades educativas: identificar árvores, flores e animais. E ir traçando objectivos: “Agora vamos até à ponte”, “Mais um esforço para chegarmos ao miradouro”…

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3. Encontrar o “enredo” certo

Cantar, fazer jogos, contar histórias são actividades que ajudam a passar o tempo enquanto caminhamos. A maior motivação para a Mia andar é quando se sente protagonista de um dos seus desenhos animados ou histórias preferidas. Ao longo das caminhadas vai inventando peripécias e nós ajudamos e estimulamos. Exemplos: ir mais longe na floresta para encontrar a planta artemísia para salvar o passarinho Pipo, subir à montanha mais alta com as cabrinhas, ser “pastora-general”, tal como acontece nos episódios da Heidi; fugir do tigre Shere Khan ou ir à procura dos macacos que povoam O Livro da Selva; encarnar a personagem Dora, a Exploradora ou recriar um desafio da Patrulha Pata.

E depois, claro, aquela pequena manipulação aos espíritos rebeldes. “Eu acho que não consegues subir esta encosta toda. É muito alta, acho que nem eu consigo…”. Eles querem sempre superar-se e começam cedo a gostar de nos provar o contrário. E passo-a-passo: “cortamos a meta”.

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4. Ter expectativas realistas

Começar por percursos curtos para ir testando a resistência das crianças e, progressivamente, ir aumentando as distâncias. Nas primeiras vezes é melhor ir mentalmente preparado para ter de carregar a criança ao colo ou às cavalitas. A partir daí, só pode melhorar.

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5. O que levar na mochila

Água (muita), protector solar, repelente para insectos e snacks (o menu preferido da Mia para caminhar: sandwiches barradas com chocolate, barras de cereais, maçãs e bananas), kit de primeiros socorros para eventuais – e prováveis – quedas (desinfectante e pensos).

6. Equipamento

Roupa leve e prática. O calçado deve ser o mais adequado para o tipo de terreno e de clima. Botas de caminhada funcionam melhor do que sandálias ou sapatos de borracha.

7. Dicas finais

Desfrutar ao máximo do ar puro e da natureza. Levar um saquinho para guardar folhas, penas, pedrinhas que as crianças queiram apanhar e levar para casa para coleccionar, quem sabe começar um Livro da Natureza. Já agora, há um livro português maravilhoso chamado Lá Fora muito inspirador para estes passeios. Caminhar com amigos, especialmente se tiverem crianças da mesma idade. A aventura aí será muito maior e inesquecível e as dinâmicas do grupo tornam tudo mais fácil.

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“A memória e as pedras têm em comum a erosão causada pelo tempo e a distância”.*

Não espero, Mia, que daqui a uns anos te lembres das nossas viagens, imagino até que não te vás recordar de causa nada, seja dos nomes dos países, das cores dos peixes “que parecem flores” no fundo do mar na barreira de coral, do som do sino a tocar em Mandalay, do sabor doce-amargo do durião, do ritmo da haka dançada pelos maori em Auckland.

Mas talvez um dia, quando fores crescida, e por algum acaso encostes o teu corpo quente a uma pedra fria talvez te lembres da sensação. Talvez sintas, inexplicavelmente, o aconchego de um lugar familiar. E ao te lembrares da sensação, mesmo sem saberes, será recordado o dia, este, em que viste nas pedras um bom lugar para descansar.

*(No italiano musicado de Ugo Betti soa ainda melhor).

Na foto: descanso da guerreira depois da caminhada no desfiladeiro de Kings Canyon, na Austrália.

Boas caminhadas!

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