Quantas faces tem o paraíso?

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As Fiji são a concretização do postal de férias perfeito: ilhas de praias com areia branca, águas mornas e azul turqueza, palmeiras, flores exuberantes, corais e peixes de todas as cores. Por aqui gravaram-se filmes como A Lagoa Azul com Brooke Shields e Náufrago com Tom Hanks. Não é preciso acrescentar muito mais sobre o cenário onde nos encontramos: é o paraíso. Mas o paraíso quando nasce está longe de ser para todos.

Encontrámos um dos nossos pedaços de paraíso num resort considerado “low cost” onde a maior parte dos clientes são mochileiros com metade da nossa idade. Norte-americanos, alemães, dinamarqueses, canadianos, brasileiros. Muitos trabalharam com um visto temporário na Austrália ou na Nova Zelândia e estão na recta final antes de regressar a casa; outros estão a dar a volta ao mundo como nós. O nosso quarto fica num casebre de madeira em cima da praia, descemos um lance de escadas, damos 10 passos na areia e estamos a mergulhar por entre corais e peixes de todas as cores. Um lugar onde a poesia se torna realidade. Ou foi a Sophia de Mello Breyner Andresen que tornou a realidade em poesia?

“No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores”

Snapper

Se quisermos podemos fugir da linha de água onde estão os outros “bure” e ter uma praia só para nós. Pegamos em dois caiaques, o Francisco leva a Mia num, eu levo as máscaras de mergulho e as barbatanas noutro, remamos 15 minutos e estamos numa praia só para nós. A água cristalina à superfície e, debaixo, um jardim de corais povoado por peixes exóticos. A determinadas horas ouvimos o som de um batuque a ser tocado do outro lado, o que significa que a refeição está na mesa. Não temos de nos preocupar com nada.

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Durante o dia há encontros para ouvir música e à noite organizam-se festas. Não há muitas famílias por aqui e a Mia virou a coqueluche do resort. O staff adora-a, os outros hóspedes, rapazes e raparigas de vinte e poucos anos chamam-lhe “o tesouro da ilha”. Ela dança, canta, sobe para o palco com os funcionários, participa nos concertos de dia e nas festas à noite. Anda feliz da vida. Nós também. Estamos no paraíso, já disse. Mas há mais caras neste paraíso.

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A Licia é uma das funcionárias deste lugar. Está grávida de 6 meses e tem dois filhos em casa a viver com o resto da família. “Felizmente as famílias aqui são grandes”, diz-me. A casa de Licia fica na ilha principal, em Viti Levu, a três horas de barco. Por isso, fica 35 dias seguidos a trabalhar no resort e depois 4 dias em casa, regressa ao trabalho por mais 35 dias, à espera de descansar com a família outros 4.

Ganha três dólares fijianos à hora (cerca de 1 euro) e são contabilizadas 48 horas de trabalho por semana, apesar de viver fora de casa mais de um mês seguido. Resumindo: um ordenado mensal de cerca de 246 euros. Com um sorriso ela diz-me: “Não me posso queixar. Tenho emprego. Mas depois do bebé nascer preferia não vir mais. Quero ficar com o meu bebé…Vamos ver se consigo”. A licença de maternidade nas Fiji é de um mês.

A Licia é uma entre os vários funcionários deste lugar, apenas uma entre os milhares de trabalhadores do sector do turismo e hotelaria distribuídos pelas ilhas fijianas. Impressionam pela capacidade de trabalho e boa disposição. A mesma pessoa pode no mesmo dia: vestir o fato de mergulhador para ir com os hóspedes ver as raias gigantes, ficar atrás do balcão a organizar as actividades, limpar o areal da praia, despir-se à noite para envergar o fato tradicional fijiano, pegar na viola e tocar e dançar para os hóspedes até às dez da noite. A mesma pessoa. Todos os dias, das cinco da manhã às dez da noite, e sempre com um sorriso. Ganham entre 3 e 5 dólares fijianos à hora.

Mesmo aqueles que vivem na aldeia mais próxima são obrigados a longas semanas longe da família, numa viagem que dura de barco cerca de 15 minutos. Fomos visitar essa aldeia e reencontrámos uma das senhoras que trabalha no resort e nos contou que a aldeia foi fustigada pelo ciclone de Fevereiro passado. A Mia esteve por lá, a fazer actividades com as crianças do pré-escolar que têm agora aulas numa tenda montada pela UNICEF porque o espaço antigo ficou destruído. Para irmos à aldeia pagámos ao resort, cada um, 20 euros. Alguém do nosso grupo comentou isto com o guia na aldeia que ficou escandalizado. Ele não sabia e, pelos vistos, mesmo numa aldeia minúscula onde parte dos habitantes trabalha no turismo, ainda há segredos.

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Este resort, que uso como exemplo, é de muito pequena escala mas nos maiores, os que pertencem às grandes cadeias hoteleiras internacionais, os salários são semelhantes. Também estivemos num desses sítios e a experiência foi reveladora. Os funcionários ganham numa semana aquilo que cada cliente gasta facilmente numa refeição no resort, nem falo na dormida.

E os funcionários sabem disto, os preços – obscenos, inacreditáveis – estão escritos nos menús. Viemos na época de férias escolares de australianos e neozelandeses e está cheio de famílias com crianças. Os miúdos até determinada idade não pagam e os pais mandam vir tudo aquilo a que têm direito. Por vezes, os miúdos dão duas trincas nos hambúrgueres e nas batatas fritas, não querem mais e os pratos vão para trás assim. A expressão inesquecível da Naomi a recolher os pratos para cima do tabuleiro e a voltar à cozinha… As consequências do turismo podem ser muitas e acontecer a vários níveis. Dizem que viajar transforma-nos, mas é importante lembrar que quem é visitado também pode ser transformado pela presença de quem viaja.

As Fiji são um país-arquipélago no meio do Pacífico Sul onde o turismo é vital para a economia. O sector gera 1.2 mil milhões de euros por ano e 112 mil postos de trabalho directos e indirectos (33% do total). Os visitantes estrangeiros gastaram em 2014, 793 mil milhões de euros – dados de 2015 da Organização Mundial do Turismo. Devia dar para a população viver razoavelmente bem. Mas a maioria da população é pobre. Porquê?

A maioria dos resorts e das empresas turísticas são detidas por estrangeiros. O turismo que podia ser um factor de riqueza para a população do país falha por completo esse objectivo. Alguns sindicatos fijianos, com o apoio dos seus congéneres na Austrália e Nova Zelândia, têm tentado chamar a atenção para o problema mas são acusados de estar a prejudicar os trabalhadores nacionais e de fazer uma campanha que só terá como consequência a diminuição do turismo nas Fiji.

Esta questão é um pau de vários bicos e, aqui chegados, o que fazer? O que fazer para sermos turistas/viajantes mais responsáveis?

Em teoria sabemos o que devemos fazer para tornar o turismo sustentável: viajar de forma independente, escolher alojamentos e optar por transportes detidos por locais, “fugir” das grandes cadeias internacionais ou ficar naquelas que apoiam (não nas que dizem apoiar) as comunidades locais com projectos sustentáveis e salários dignos.

Mas tudo isto é, perdoem-me pelo pessimismo, tão pouco. A verdade é dura e complexa: as grandes cadeias podem empregar, em cada resort, entre 300 a 500 funcionários. São famílias inteiras que dependem deste rendimento – esta é uma realidade concreta à qual é impossível fugir. Podemos, então, pressionar os poderes políticos para criar um salário mínimo mais elevado (actualmente o salário mínimo é de 2,32 dólares fijianos à hora, ou seja, 99 cêntimos de euro) mas os empresários, donos das cadeias hoteleiras, dos barcos, dos transfers, das tours, podem simplesmente falar, como falam, em custos de operação, custos de manutenção, sazonalidade, e dizer, como dizem, então fechamos o hotel aqui e vamos para as ilhas Vanuatu, ou para as Solomon, ou para outro lado qualquer do globo onde lhes autorizem a explorar as riquezas locais a troco de uma ínfima parte dos seus lucros.

E, de um dia para o outro, são 500 famílias das Fiji que ficam sem rendimento. Multiplicando isso pelos vários hotéis e resorts podemos chegar aos milhares que dependem do turismo para sobreviver e que ficam sem nada.

A solução é, por isso, internacional, global e está nas mentalidades. Mas como mudar isto? Como mostrar a um empresário que em vez de um lucro de dois milhões, ele pode ter um lucro de um milhão mas funcionários com um nível de vida mais justo? Como dizer que tem de investir nos recursos humanos locais – que são valiosos, tão valiosos aqui – em vez de contratar apenas só quase expatriados para as posições séniores? Como explicar que ao criarem estes redutos, estes parques de diversões para ocidentais estão a destruir, a castrar, tudo aquilo que as Fiji, como outros locais, têm de mais genuíno. A generosidade, o sorriso permanente, a forma de viver simples e despojada, a alegria.

Num destes dias apanhámos uma boleia para ir à praia Natadola, uma das mais bonitas de Viti Levu, e no regresso, apanhámos um táxi local. “Senganalenga“, este é o lema das Fiji, explicou-nos Max, o taxista. “Quer dizer “Don’t worry, be happy. Aqui nas Fiji, a nossa riqueza está aqui!”, e faz o gesto de bater no coração. “Se vemos passar alguém, chamamos para vir comer connosco, há sempre lugar para mais um”. Ficou curioso quando dissemos que tinhamos vivido em África. “Os meus antepassados vieram do sul de África! Eles lá são assim como eu, não é?”. São, são assim mesmo. Extraordinariamente semelhantes, apesar da distância.

Suspirámos juntos ao imaginar a coragem que foi precisa para os primeiros homens e mulheres que navegaram (como o terão feito?) até aquelas ilhas perdidas do Pacífico. Olhámos para o horizonte e perguntámos quantos terão ficado pelo caminho. Mas os primeiros que chegaram, esses são a génese da aventura do homem (e da mulher) na terra.

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Agradece-nos por estarmos a usar um transporte local e não um transfer do hotel. As injustiças não lhe passam despercebidas. “Aqui quem ganha dinheiro são os donos dos hóteis, os fijianos não”. É demolidor na forma como remata. “Mas só interessa o que fazemos quando estamos neste mundo, porque quando morremos…quando morremos, ninguém leva nada. Vamos todos nus!”

Nas Fiji voltámos a sentir aquilo que sentimos em África. O calor, os sorrisos, a generosidade, o viver com pouco, a alegria sem motivo alguma não ser a própria vida.”Bula! Bula!”. Uma celebração da vida.

Mas vamos partir daqui, também, com a certeza de que há demasiada injustiça e também com algum sentimento de culpa por termos feito, inevitavelmente, parte dessa injustiça.

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Olho para a Mia e para as crianças com quem ela brinca neste exacto momento e pergunto-me se na geração dela vai ser diferente. Se será possível pela educação, pela cultura, pelo reforçar da importância da empatia, criar uma geração de políticos, de empresários, de cidadãos mais felizes, mais solidários, mais justos…E como é que isto se faz? Numa escala global que permita resultados? Não sei…

Partilhar isto por aqui alivia-me um pouco a consciência mas não muda em nada a vida da Licia, do Max, da Naomi, do Navi… As caras de que é feito este paraíso.

E que me fazem voltar ao fundo do mar de Sophia.

“Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso”

6 pensamentos sobre “Quantas faces tem o paraíso?

  1. Que pena a tua descrição ter chegado ao fim 😦 Até parecia que eu estava convosco a viver e sentir tudo isso …
    Bjs grandes para os três.

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  2. Que bom que se fale das gentes e do outro lado do paraíso.Que viagem maravilhosa.

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  3. A força dos interesses económicos é brutal. Felizmente já vai havendo gente que começa a fazer-lhes frente. É o caso do projeto Terra Madre, que pretende a volta das formas de cultivo tradicionais. Os progressos são muito lentos mas os sucessos são sólidos: http://www.terramadre.info/en/

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