Perú: encontro em Barranco

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Voámos de Las Vegas para Lima e passar de uma América para a outra nas poucas horas que um avião permite é um embate intenso. “Hot dog is very nice mas eu gosto de angú”, diria o brasileiro Seu Jorge na música América do Norte e com isto ele já diz muito sobre as diferenças nos dois lados de um continente. Mas adiante nesta viagem. Escolhemos como poiso o bairro de Barranco, a zona boémia da cidade de Lima conhecida pela romântica Ponte dos Suspiros com vista para o mar e por ser reduto de artistas. Aqui convive alegremente a tradição das mulheres quechua sentadas na rua a tricotar ponchos e gorros coloridos com o design moderno do espólio do Museu Mario Testino, fotógrafo de moda peruano e retratista das celebridades, o preferido da Princesa Diana. Barranco tem alma universal.

O nosso primeiro almoço em Lima foi no restaurante tradicional Las Mesitas e, juro, quase me vieram as lágrimas aos olhos. O mosaico hidráulico no chão, as mesas com tampo em mármore e cadeiras de madeira e assento de palha. Tudo com tanta história como os nossos vizinhos da mesa ao lado. Um deles, cabelo farto e branco, cachecol sobre os ombros, óculos de massa, o outro, boina impecável, nó de gravata aprumado, bigode literário. Conversavam ao lado de uma pilha de papéis e blocos de notas. Eu, sentada, olhava-os fascinada como quem lê o capítulo de um livro sobre a década de 60 algures na América Latina.

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Retratos do fotógrafo peruano Mario Testino no museu com o seu nome, em Barranco

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Foi em Barranco que conhecemos a Judite. Sabem aquele olhar e sorriso inequívoco de “boa pessoa”? Assim é a Judite, funcionária da pensão onde ficámos alojados. Como a maior parte dos outros hóspedes não fala espanhol a Judite fica felicíssima por podermos comunicar facilmente com o nosso portunhol pobrezinho mas esforçado. E por isso ficamos todos os dias um pouco à conversa. Falamos do Perú e de coisas da vida. De como, por exemplo, ela acorda às três da manhã e demora três horas nos quatro autocarros diferentes que tem de apanhar de casa para o trabalho, e vice-versa.

Enquanto falamos a Judite brinca e olha sempre com muito carinho para a Mia. Mas no olhar há também nostalgia e tristeza, pelos filhos que teve e já cresceram, pelos filhos que queria ter tido e não a deixaram ter.

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Num dos dias que vivemos contentes da vida em Barranco, a Judite contou toda a sua história. Teve dois filhos – hoje em dia já crescidos – mas sonhava ter quatro. No último parto foi esterilizada à força no hospital. Ninguém lhe perguntou nada. Era uma medida do governo de Alberto Fujimori, antigo presidente do Perú. Mais tarde vou pesquisar sobre o assunto na internet. Uma reportagem da BBC, de 2015, conta que centenas de milhares de mulheres peruanas, entre 1990 e 2000, foram submetidas a cirurgias para esterilização em regiões com níveis de pobreza elevados e onde a maioria da população é indígena. Em 2002, uma comissão do Congresso peruano investigou os casos de “cirurgias de contracepção forçadas” para concluir que 314.605 mulheres foram esterilizadas seguindo o Programa Nacional de Planeamento Familiar.

Há casos de mulheres que eram chantageadas, ameaçadas, amarradas por médicos e enfermeiras para executarem a laqueação das trompas. As autoridades locais chegavam a proibir o registo da criança que nascia se a mãe não se submetesse antes à esterilização. Algumas mulheres morreram, outras foram abandonadas pelos maridos, outras ficaram com traumas e mágoas para o resto da vida. Um corpo invadido, um futuro mutilado, sonhos desfeitos. Como a Judite. Isto aconteceu em 1990 e 2000.

Além do drama pessoal da Judite e das outras mulheres, há um ponto que me perturba até à exaustão nestas atrocidades: onde estarão agora aqueles médicos, enfermeiros, funcionários do Estado? Provoca-me mais curiosidade o pequeno executante do que o grande mandatário. São as centenas, milhares de pessoas comuns, funcionários normais, vizinhos da porta ao lado, que por vínculo contratual se transformam em carrascos, em torturadores, em agentes da pide, em operadores da câmara de gás, e que efectivam os desígnios imorais, criminosos, ideológicos de um louco – que me causam a maior perplexidade. Porque a História pode sempre repetir-se.

Esperançosa no rumo da História do seu país (houve eleições este ano) e conformada com o rumo da sua história pessoal, a Judite sorri sempre. Na despedida deu-nos aos três um abraço muito apertado, quis tirar uma foto connosco, ficou curiosa quando lhe disse que era jornalista e pediu: “Aproveitem muito do meu Perú querido. Contem a todos como é lindo”. Prometo que sim, Judite, aqui te conhecemos e, por isso, não há outra forma de o contar.

4 pensamentos sobre “Perú: encontro em Barranco

  1. Joana, há poucas semanas realizou-se aqui na nossa Casa do Alentejo um encontro de solidariedade com a América Latina, com representantes de diversos países. Cheguei quase no finzinho mas a tempo de ouvir uma deputada peruana que relembrou esse episódio negro da história recente do Peru. Referiu mulheres, camponesas, que foram esterilizadas mesmo nos campos. Eram abordadas por equipas médicas que as anestesiavam sob falsos pretextos e, quando acordavam, nem sabiam o que lhes tinha acontecido. Milhares de mulheres, em todo o país. “Fujimori não permitia que nascessem mais lutadores, mais resistentes”. Apesar de já conhecer esta realidade, ouvi-la da boca de uma peruana foi de uma dureza brutal. Mas muito importante. E ela não tinha sido uma dessas vítimas!
    Claro que não deixo de me questionar como é que, menos de 20 anos depois, a filha desse monstro, ela própria Fujimori, perde as eleições presidenciais por escassas décimas. Tem que ser um país de (ainda) grandes contradições. 😦
    Beijos enormes e obrigada pela partilha.

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    • Obrigada por vires aqui contar isto, Natacha. A filha do Fujimori, que ainda por cima está preso por conta de todas as barbaridades, perdeu as eleições por 40 mil votos, segundo nos contaram outro dia, acrescentando: “Esto solo pasá en Perú!”. Temos andado pelas estradas e povoações do interior e, como as eleições foram há pouco tempo, a cada duas casas ainda está pintado um stencil de propaganda da Keiko (filha do Fujimori) com um chapéu de camponesa, o slogan “La fuerza del pueblo” e uma figura altamente empática com o cenário. Sim, será por certo um país ainda com grandes debilidades e contradições. Infelizmente, tenho é a certeza que coisas como esta não são solo no Perú que pasán. Beijo e obrigada!

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  2. Joana linda a tua descrição, triste a situação dessas peruanas 😦

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