Machu Picchu: 1951 – 2016

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O relato da viagem pela América Latina que viria a transformar o médico argentino Ernesto Guevara no revolucionário universal “Che” tem sido uma companhia desde que comprei o livro Diários de Motocicleta em Lima. Como temos percorrido alguns dos lugares por onde Che Guevara passou com o seu amigo Alberto Granado e a moto La Poderosa, é curioso ler o que foi escrito sobre os mesmos sítios há 65 anos. É um exercício que me tem entretido e emocionado. De um lado, as maravilhas naturais, o orgulho das gentes ameríndias, a aventura que é andar estrada fora; do outro lado, a injustiça social, a exploração dos campesinos indígenas, o fosso entre ricos e pobres, o continente marcado pela colonialização, primeiro e, mais tarde, por ditaduras, corrupção e esperanças (quase-sempre) falhadas.

Neste comboio da fotografia estamos a caminho de Machu Picchu. No capítulo dedicado às ruínas mais famosas do mundo, Che reflecte como “o povo indígena mais poderoso das Américas”, capaz de feitos arquitectónicos e militares notáveis, acabou por ser aniquilado pelas armas espanholas. E, na visita ao “umbigo do mundo” descreve como, de quando em vez, assoma “a cabeça loura de um turista norte-americano” a deambular junto à antiga cidade Inca.

Viajo na viagem, a de Che e a nossa, e salto de 1951/52 para 2016: hoje em dia é impossível contar as cabeças dos turistas e adivinhar-lhes nacionalidades. São aos milhares vindos de todos os lados do mundo, estima-se que 2.500 por dia (limite recentemente imposto) e cerca de um milhão por ano. Para entrar em Machu Picchu cada pessoa tem de pagar 40 euros, o que significa que nos meses de Maio a Setembro a facturação diária, só nas bilheteiras (geridas pelo governo), será de 100 mil euros. A juntar a isso há a viagem de autocarro ou de comboio que custa no mínimo dos mínimos 24 euros e há quem pague (muitos, as carruagens vão quase cheias) cerca de 400 euros para fazer o mesmo percurso mas com velas na mesa e bebidas à descrição. Mesmo ir a pé e fazer o místico Caminho dos Incas pode custar algumas centenas de euros e é preciso reservar com meses de antecedência porque está sempre esgotado. Mais os alojamentos e a restauração para todos os gostos e bolsas.

Se a força da civilização inca já era admirada em 1951/52, o lucrativo negócio em que seria transformada a atracção turística de Machu Picchu era impossível de prever há 65 anos. O que escreveria hoje Che depois de estar 3 horas numa fila para chegar perto da glória inca?!

Paralelamente, num subúrbio de Cusco, onde vamos a uma consulta médica com a Mia por causa de uma pequena infecção na pele que ela trouxe das Fiji, leio num jornal local que uma onda de frio assola esta região dos Andes e já provocou a morte de 37 pessoas em Cusco, sobretudo crianças e idosos que não resistem à pneumonia. O jornal refere a necessidade urgente do envio de vestuário e medicamentos. Não deixa de ser estranho a urgência no envio de algo que existe com fartura na cidade: proliferam lojas com vestuário e equipamento para o frio e não faltam farmácias onde comprar, por exemplo, o antibiótico que o médico receitou para a Mia.

Apesar de todas estas constatações, hoje, em 2016, oito crianças com menos de cinco anos morreram de frio à sombra das ruínas de Machu Picchu. Na América, na América Latina de Che, onde tanto mudou e onde tanto permaneceu exactamente na mesma, 65 anos depois. Repito-me, para que o magnetismo de Machu Picchu, a beleza de Cusco, as cores dos mercados, a simpatia dos peruanos não me deixe esquecer que, enquanto aqui estivemos, oito crianças com menos de cinco anos foram deixadas morrer.

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