A magia do Titicaca

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Não foi à primeira vista que o Lago Titicaca nos conquistou. De tanto ouvir e ler sobre o maior lago da América do Sul e o lago navegável mais alto do mundo, saímos de Cusco prontos para ser deslumbrados ao primeiro impacto. A viagem de autocarro feita durante a noite num confortável “bus-cama” (autocarro com assentos reclináveis) deixou-nos na pequena cidade de Puno, o nosso ponto de partida para conhecer o lago situado nos Andes.

No primeiro dia fomos directos às ilhas flutuantes de Uros, consideradas a maior atracção turística do Lago do lado peruano. Quisemos ir por nossa conta, sem ser através de agência, para ser mais barato e para termos – pensávamos – uma experiência mais genuína. Apanhámos um ferry no porto de Puno e seguimos. A paisagem de ilhas, casas e embarcações feita de totoras (plantas aquáticas existentes em alguns lugares da América do Sul) tem tanto de fotogénica como de travo amargo a “tourist trap” (armadilha para turista cair).

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A História pode ajudar a explicar: os  Uros são um povo pré-colombiano que criou as ilhas flutuantes artificiais para evitar o domínio de outros povos, como os Incas. Queriam viver em segurança e segundo as suas próprias regras e tradições. É compreensível que não queiram, séculos depois, ser “invadidos” por turistas de todo o mundo à procura de fotos exóticas. Preferem – legitimamente – viver uma vida pacata, longe do assédio turístico e, imagino, por isso, que vivam mais resguardados, tendo sido criadas estas réplicas encenadas de cidades para “turista ver” que sempre permitem algum rendimento à população.

Na manhã em que estivemos por aqui e andámos num dos “barcos de palha”, como observou a Mia, ficámos a saber que existem cerca de 90 ilhas flutuantes onde vivem entre cinco a dez famílias por ilha. É necessário um constante trabalho de manutenção para assegurar a flutuabilidade destas ilhas onde os residentes vivem e pescam, e alguns alugam quartos a turistas e vendem artesanato. A visita valeu a pena porque ficámos a conhecer um estilo de vida único. A capacidade de adaptação dos Uros ao meio envolvente, a sua resiliência e vontade de se manter autênticos, são reais. Apesar de tudo isso entrámos no barco para regressar a Puno um pouco desiludidos. Em definitivo, não estávamos a sentir a magia do Titicaca.

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A Mia também não estava no seu melhor. Depois de uma infecção da pele que apanhou nas Fiji por causa de uma simples ferida no joelho estava a antibiótico desde Cusco e começava a não comer nada. Achámos que seria do cansaço de uma noite dormida no autocarro, do antibiótico e dos efeitos da altitude. Surgiram dúvidas sobre o que fazer: seguir os planos e apanhar o barco de duas horas e meia até à ilha de Taquile no meio do lago, ou esquecer isso e ficar em Puno mais uns dias. Resolvemos avançar.

No dia seguinte entrámos no ferry até à ilha de Taquile. Já no porto fomos recebidos pela dona da casa particular onde iríamos dormir. A Inés veio ter connosco ao porto para nos ajudar com a mochila. Dissemos que não era preciso mas ela avisou: “Ai é preciso é. Acreditem!” e com ligeireza meteu o nosso saco às costas amarrado por um pano. “Estão preparados? Agora é uma caminhada sempre a subir”. Não estavamos nada preparados. O Lago Titicaca fica a quase a 4 mil metros acima do nível do mar e fazer a subida para casa da Inés foi um tormento. Várias paragens pelo caminho, a Mia – pela primeira vez na viagem – a recusar-se por completo a caminhar. Nós os dois em esforço. Tentei aliviar com os rebuçados de coca que trouxemos de Cusco, a Inés parou para apanhar umas ervas que inalámos e ajudava bastante. Quando chegámos à casa a Mia estava pálida como nunca, não tinha reacção, só queria dormir – geralmente é a única coisa que ela nunca quer fazer – não comia nada e o pouco que a obrigámos a comer vinha fora.

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A casa de Inés era modesta como seria de esperar e tudo ali começou a parecer-nos catastrófico: passar uma noite no meio do lago Titicaca, numa casa fria e sem grandes condições para albergar uma criança doente sabe-se lá com o quê. À nossa frente, o lago tão imenso que parece um mar, e a duas horas e meia de barco, Puno, uma cidade pequena e sem grandes recursos. Cusco já tinha ficado para trás depois de oito horas de autocarro. Não fazíamos ideia do que a Mia podia ter e, pela primeira vez na viagem, ficámos os dois sem saber o que fazer. Começámos a discutir se seria melhor regressar no mesmo barco se ainda estivesse no porto mas decidimos ficar.

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Fomos para o quarto e deixámos a Mia fazer o que queria: dormir. Passado um pouco apareceu a Inés à nossa porta. Estava preocupada connosco, combinara ir para Puno mas acabava de cancelar a partida porque achava melhor ir chamar o médico da ilha. Deixou-nos e lá foi. Passado pouco tempo chegaram, a Mia acordou e mal ouviu falar em médico desatou a chorar. Ao segundo acorde do choro o médico perguntou: “Ela tem sempre esta voz rouca?”.

Quando o médico voltou confirmou a amigdalite e deu-nos a medicação. Já aliviados, ficámos à conversa. O Dr. Fredy tem 26 anos e é estudante de Medicina em Cochabamba, na Bolívia. A passagem por Taquile faz parte do estágio final e, a seguir, pensa especializar-se em Espanha ou França. Falámos de viagens e de como ele gostaria um dia de viajar em família como estamos a fazer. Despedimo-nos cheios de gratidão, saiu o médico e entrou uma das filhas de Inés com água morna para a Mia beber. Ficaram as duas a ver desenhos animados no tablet. O nosso quarto parecia o epicentro da vida em Taquile.

Depois do jantar, olhámos as estrelas da varanda do nosso quarto, e dormimos os três a noite inteira bem quentes, ao contrário do que receávamos. Quando acordámos estava à nossa espera uma deliciosa travessa de Pão de Taquile (uma espécie de massa frita que estava no ponto) e doce de morango, acompanhada de chá de ervas. Depois do diagnóstico médico, da noite bem dormida e daquele pequeno-almoço, a “tempestade” em nós tinha passado.

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Quando a Ilha Taquile espreguiça-se à beira do Lago Titicaca e acorda as crianças saem de casa para a escola, descendo e subindo os vales da ilha com os seus uniformes, as meninas de saia rodada vermelha ou azul, típicas da região, e mochilas da princesa Elsa, dos Angry Birds ou da Hello Kitty. A tradição, o carácter único de uma cultura mesclados com elementos semelhantes aos usados por milhões de crianças a fazer o mesmo trajecto casa-escola em todo o mundo. Taquile, aldeia global. E a Mia, a Mia já corria outra vez, corria atrás de um papagaio improvisado de canas e saco de plástico com um fio amarrado a uma garrafa de refrigerante conduzido por um miúdo feliz.

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Depois do toque de entrada subimos até à praça central, visitámos uma cooperativa de artesãos – todos homens que aprendem a tricotar ainda quando crianças – com trabalhos de tecelagem absolutamente magníficos, atravessámos os arcos de pedra ao longo da ilha, ouvimos os ensaios do grupo de música da escola a preparar-se para as comemorações do 28 de Julho, Dia da Independência do Perú.

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A magia do Titicaca aconteceu, enfim, à nossa frente. Mas não foi a paisagem – é sublime! – feita de um lago imenso, em que o céu e a água se fundem num só acompanhados à distância pelas montanhas da Bolívia com os picos cobertos de neve. Não foi também do nascer e do pôr do sol – inesquecível! – e que faz do Titicaca ser o lugar onde os Incas diziam ter nascido o Sol. Não foi por causa de nada disto.

A magia do Titicaca apareceu-nos pela preocupação da nossa anfitriã Inés que mudou os seus planos para nos ajudar ao ver a nossa filha doente, pela descontracção e solidariedade do jovem médico Fredy que prontamente começou a tratar a – afinal – simples amigdalite, pela alegria dos meninos que lançam papagaios a caminho da escola, pela simpatia dos funcionários do restaurante comunitário que nos cozinharam uma truta deliciosa acompanhada de banana frita que fez a Mia voltar a comer, pelas mãos que tricotaram o cachecol colorido que agora lhe abafa a garganta e trouxemos da cooperativa no centro de Taquile.

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O lago mais alto do mundo, o lago onde os Incas diziam ter nascido o Sol, o lago povoado de lendas e misticismos cresceu em nós e, aqui, na ilha de Taquile, a magia aconteceu. E este foi só o começo do nosso enamoramento pelo Titicaca. Daqui atravessaríamos a fronteira para a Bolívia até à cidade de Copacabana e embarcaríamos rumo à esplendorosa Ilha do Sol.

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