Mundo da Mia #6

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O que são as memórias e como se criam? Como guardamos para sempre determinamos acontecimentos – às vezes sem aparente relevância – e esquecemos outros tantos? Com que filtro se faz essa triagem? Já escrevi por aqui sobre isto porque foi um assunto sempre presente nas conversas com amigos e familiares desde o início da viagem. Viajar com uma criança de três anos seria “um desperdício” porque a Mia “não se vai lembrar de nada”.

As crianças esquecem-se dos primeiros anos de vida logo na infância. É indiscutível. Empiricamente qualquer um de nós, adulto, pode confirmar o que investigadores dizem: as primeiras memórias que temos da nossa vida surgem mais tarde, aos 4 ou 5 anos, geralmente depois de aprendermos a ler. A neurociência explica que acontecimentos antes dos três anos são gravados por meio de códigos não linguísticos que não fazem sentido quando somos adultos e, por isso, não somos capazes de processar e entender.

Nada disto faz diferença porque nunca seria um objectivo nosso ela lembrar-se de factos, acontecimentos, países, cidades, pessoas. Ainda assim o tema da memória é inesgotável. Como se constrói a memória? Até que ponto as nossas lembranças mais distantes são recordações “limpas” ou memórias já filtradas pelos relatos dos outros, pelas percepções e influência de terceiros, pela ajuda matreira de fotografias, pela erosão do tempo, pela mudança interior que sofremos ao longo da vida?

Quando chegámos ao apartamento que alugámos em La Paz, a Mia correu para a cozinha – tem um encanto por cozinhas e já não tinha acesso a uma há algum tempo – e voltou à sala pouco depois a sorrir.

“Mãe, olha lá isto! O Avô António e a Avó Graça também usavam isto em Setúbal para me fazer sumo de laranja com banana! Já viste?”

Deixámos Portugal há quase seis meses, a Avó Graça morreu há quase um ano. Apesar de pensar nela todos os dias nunca falo em voz alta da minha mãe, nem tenho comigo fotografias e vídeos para mostrar à Mia, meios que lhe avivem, estimulem, consolidem, moldem (sim, é inevitável) a memória. Por isso, tenho a certeza que, pelo menos para já, esta é uma memória “limpa” da influência externa.

“Ela não se vai lembrar, é tão pequena!”, ouvi vezes sem conta sobre a (não) importância de fazer uma festa de aniversário, sobre a nossa viagem de volta ao mundo, e também sobre a morte da “Avó Graça”. Concordei. Mas e agora? No meio daquilo que sabemos cientificamente sobre a memória e sobre aquilo que o nosso cérebro guarda, há a alegria, o amor recebido, as emoções sentidas em determinado espaço de tempo, não importa se curto ou longo. Memórias de afecto, talvez. Memórias que podem até não ficar guardadas num compartimento específico do nosso cérebro. Mas memórias que a Mia, “tão pequena!”, foi reencontrar num espremedor de laranjas numa casa em La Paz.

4 pensamentos sobre “Mundo da Mia #6

  1. Olá Joana! Continuamos por aqui a acompanhar deliciados a vossa aventura. Quanto à memória, contra todos os dados e estudos, temos a prova “científica” da Marta, que ainda que eu às vezes tivesse dificuldade em acreditar, se lembrava de coisas absolutamente surpreendentes e anteriores à nossa vinda para Angola, portanto antes dos 3 anos de idade. Conta-me de uma viagem de estudo que fez com a educadora ao teatro e do lanche que ela lhes ofereceu na sua própria casa, com pormenores de o que comeu, com quem brincou, de uma casa de bonecas que ela lá tinha… Lembra-se de um vizinho ter um cavalo branco e da aventura que era ir fazer festas ao bicho… Lembra-se de cores e cheiros de coisas… Algo que eu acharia absolutamente improvável se não tivesse vivido essas coisas com ela. Enfim, o que me parece é que tudo se resume ao que dizias acima, ainda que na memória da Mia não sobreviva tudo o que viveu, ainda que nem sempre haja nitidez nessas memórias, ficará a impressão afectiva dessas vivências, ficará gravada de sons, de cheiros, texturas, sabores, cores… património precioso que apesar de adormecido será permanente. Mas só para tirarmos dúvidas, acho que poderemos sempre ter esta conversa daqui a vinte anos… Que tal???? Beijinhos de Luanda

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    • Que comentário tão maravilhoso! Obrigada! Fico mesmo contente por saber dessas recordações da Marta. A Mia foi para Angola aos 4 meses e veio embora com 3 anos. Por isso, as probabilidades são poucas mas – por ter sido um período tão marcante e feliz para nós – gostava muito que um pouco das vivências dela em Angola continuassem vida fora, as tais “impressões afectivas”, sons, cheiros, sabores, … mesmo que ela, em concreto, não se lembre de absolutamente nada. Mas temos encontro marcado 🙂 Beijinhos para Luanda, de que tanta falta sinto

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  2. Querida Mia que a memória seja sempre feliz, com saudade, mas feliz porque é isso que ajudar a segur em frente . ❤

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