Um teleférico chamado união

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La Paz é, a par com o Rio de Janeiro, a Cidade do Cabo e Istambul, a cidade com o enquadramento geográfico mais bonito onde já estive. Andar no teleférico é, por isso, uma das recomendações turísticas mais óbvias na cidade boliviana. No entanto, o teleférico (o mais alto do mundo) que opera a 4.000 metros acima do nível do mar não é uma atracção turística mas sim um meio de transporte público dividido em três linhas – e com mais sete a ser construídas – que ligam os vários pontos de uma área metropolitana onde vive cerca de 2.5 milhões de habitantes. É também um projecto unificador que traduz a mentalidade do político indígena e ex-plantador de coca, que governa a Bolívia de hoje em dia.

La Paz está situada num vale profundo rodeado por montes e montanhas de grande altitude pertencentes à Cordilheira dos Andes. A cidade divide-se em duas partes principais: a zona do centro – na parte baixa da cidade onde concentram-se as empresas, os serviços e onde vive a maioria dos habitantes com recursos. E a zona mais elevada, o chamado El Alto, onde uma extensão enorme de bairros serve de tecto a uma população que para trabalhar ou estudar, por exemplo, tem de deslocar-se até ao centro recorrendo aos transportes existentes. Uma linha de metro, quer subterrânea quer de superfície, seria impossível de construir neste terreno.

No entanto, desde a década de 70 que existiam planos e estudos para a construção de uma rede de transporte aérea que pudesse servir uma população urbana em crescimento e reduzir vários problemas como o elevado custo do transporte entre o El Alto e o centro da cidade, o trânsito infernal, a poluição do ar e o aumento da procura de combustíveis, subsidiados pelo Estado. A verdade é que nunca houve interesse político em realizar tal empreitada, dispendiosa, pouco viável economicamente e nada lucrativa pois só iria beneficiar a população mais pobre. Os mais abonados têm automóvel particular. Os planos estiveram na gaveta até que foi eleito presidente um indígena, ex-plantador de folha de coca e simpatizante de políticas de esquerda, Evo Morales.

Morales tirou da gaveta o tal projecto do teleférico e a construção do mesmo por uma empresa austríaca ficou concluída em 2014. O custo foi abismal – 246 milhões de dólares vindos do Fundo do Tesouro Nacional – e muito criticado porque não se sabe quando será amortizado. O bilhete do “Mi Teleferico” custa – nas bilheteiras e por trajecto – 3 bolivianos (40 cêntimos; e há descontos de 50% para vários segmentos). Um valor baixo (mesmo tendo em conta o custo de vida na Bolívia) e que permite atravessar grandes áreas (e de difícil acesso) da cidade em poucos minutos. Do centro ao El Alto são dez minutos, por exemplo, enquanto por terra levaria uma hora. Este transporte funciona todos os dias desde as seis da manhã até quase à meia noite, e há serviço de WiFi gratuito em cada estação.

Percorremos as três linhas existentes (verde, amarela e vermelha) e a paisagem é arrebatadora. Por várias vezes exteriorizámos o nosso deslumbre com as vistas, chegando a dizer que foi um dos pontos altos da nossa viagem. Desse lado podem – legitimamente – pensar: mas este par de doidos esteve em países de sonho e em lugares deslumbrantes e vem dizer que o ponto alto da viagem é andar num teleférico numa cidade conhecida por ser uma confusão?!

Vou tentar explicar: andar no teleférico de La Paz é fazer parte e tomar conhecimento da existência de algo verdadeiramente transformador de toda uma sociedade. O teleférico representa uma mudança no paradigma da vida em comunidade, ou melhor, da vida de toda aquela comunidade. Quantas vezes podemos, ao vivo, observar algo assim?! Esta obra é muito mais do que tecnologia, ciência, betão, contratos de empreitada, milhões de dólares, este teleférico é profundamente ideológico. Não se trata aqui, como em muitos lugares do mundo, de um teleférico para ver as vistas (soberbas) nem para encantar turistas (naturalmente que ficam).

Esta é uma rede de transporte público! Os cabos de aço unem a cidade, interligam os vários bairros, distribuem e “oferecem” a cidade a todos os seus habitantes, pobres, ricos, remediados sem (quase) excepção. O teleférico une vidas – é, aliás, este o slogan publicitário. O “Mi Teleferico” destrói a ideia de guetos de pobres, redomas de ricos. O que significa que o usufruto de toda uma cidade torna-se possível de forma rápida e eficaz – seja durante a semana, seja ao fim-de-semana – a grande parte da população e deixa de ser apenas privilégio de uma elite.

Connosco, em cada fila para entrar na estação, em cada uma das cabines do teleférico, estavam pais e filhos a caminho da escola, operários a caminho das oficinas, mulheres “cholitas” com as suas saias rodadas e os seus chapéus típicos a caminho dos seus afazeres diários. A todos, este teleférico parece dizer: “Esta cidade, agora, também é tua! Desloca-te, mexe-te, desfruta-a”. Num país, num continente e num mundo, onde as populações mais pobres, indígenas, sofrem discriminações várias em razão da sua condição económica, esta obra é assinalável como elemento agregador.

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Depois, além de meio de transporte, o teleférico porque possibilita vislumbrar a cidade a partir de cima expõe as suas contradições: as mansões com campos de futebol e piscinas, lado a lado das favelas com habitações em carne viva e tijolos à vista. O teleférico torna-se assim a força locomotriz e, inadvertidamente, a força vigilante, perspicaz, atenta de uma cidade. Os pés e os olhos de uma cidade.

Durante os longos minutos que passámos lá em cima – fizemos todas as linhas nos dois sentidos tão fascinados que estávamos – não consegui deixar de pensar que, tal como um mero desígnio político decidiu a construção daquela mega-estrutura, uma força política que sopre noutra direcção poderá mandar deitar abaixo aquelas torres e cabos. Não há direitos adquiridos em nenhuma parte do globo e a América Latina é um lugar especialmente inconstante. Mas deixei que o Sol do Altiplano me eclipsasse o pensamento sombrio. A Bolívia saberá continuar o seu caminho.

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Um pensamento sobre “Um teleférico chamado união

  1. Nem é preciso dizeres mais !!! Vieste encantada com a Bolivia e por aquilo que tenho lido cheia de pena de regressar. Mas é a vida e aqui vais encontrar menos deslumbramento do que aquele por que tens passado nos últimos meses … Bjkas e bom regresso

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