Já contaste à Mia?/ Have you told Mia? A guerra contada a uma criança

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“Já contaste à Mia?”, perguntaram-me jornalistas e amigos. A pergunta já rondava na minha cabeça. Vou viajar duas vezes num espaço curto de tempo – para o arranque em Berlim da marcha civil por Alepo e como voluntária para trabalhar num campo de refugiados na Grécia – e andava desconfortável com a ideia de ir embora sem explicar à Mia as razões destas viagens. Mas como falar da Síria, da marcha civil por Alepo e de campos de refugiados a uma criança?

Por norma tentamos não lhe esconder a realidade mesmo que seja dura, e evitamos fantasiar demasiado os factos a que não podemos fugir. E a guerra é um facto, acontece no nosso mundo, no mundo em que vivemos, em que ela vive. Gostava, acima de tudo, que ela fosse uma adulta feliz e sonhadora, mas também empática, solidária, informada e crítica. Para isso, não há grande margem para o desconhecimento, para a omissão. Então, como abordar o assunto sem alarmismo nem demasiados pormenores? Sem pensar muito nos prós e contras juntei fotos (as mais ternas que consegui encontrar na net) de crianças a viver em campos de refugiados.

Não escolhi fotos com crianças com um ar triste ou solitário mas quis que se ela visualizasse a geografia dos campos, a terra batida, as tendas, a ausência de um espaço acolhedor. Não lhe falei em bombas, ataques, mortes, feridos, órfãos. Optei por lhe falar da perda de direitos. Disse-lhe que aqueles meninos e as suas famílias tiveram de fugir das suas casas que foram destruídas e agora eram obrigados a viver naquelas tendas todos os dias, e não tinham escola para onde ir, nem os seus brinquedos, nem supermercados ou uma cozinha para os pais fazerem as refeições, nem jardins para brincar.

“Não têm casa, mãe? Não vão à escola? Mas estes meninos são como eu, desculpa lá mas isso não faz sentido, ó mãe!” … Disse-lhe que era mesmo isso que eu achava e que, por isso, ia tentar ajudar um bocadinho num sítio como aqueles campos das fotos. E que ia também, em conjunto com muitas mais pessoas que pensavam exactamente o mesmo que nós, a uma cidade chamada Berlim, tentar chamar a atenção de responsáveis muito importantes. Disse-lhe que havia no mundo certas pessoas que podiam conversar umas com as outras e resolver aquela situação tão horrível e injusta mas que talvez precisassem que muitas outras pessoas juntas lhes relembrassem que era a coisa certa a fazer. Ela levantou-se do sofá e desviou o olhar: “Mãe, acho que não quero que vás… E se as pessoas que destroem as casas dos meninos também te fazem mal a ti?”…

Rumámos então ao mapa-mundo, contei-lhe dos meninos curdos que faziam os papagaios de papel voar o mais alto que eu já vi, apontei-lhe a Turquia, a Síria, contei-lhe dos barcos a navegar no Mediterrâneo, a Grécia, mostrei-lhe as distâncias entre os pontos. Ela sossegou. E pediu-me para lhe contar tudo outra vez e repetir tudo isto várias vezes. Fiquei a pensar, será que fiz mal, será que lhe criei demasiada ansiedade, será que devia ter ficado calada e ter dito que ia só fazer um trabalho qualquer? Ela sossegou-me, naquele instante em que chegou ao pé de mim e comunicou: “Mãe, vou fazer desenhos para levares aos meninos daquelas fotos. E, talvez, também podia fazer umas pulseiras da amizade como aquela que a minha amiga Rita me ofereceu na minha festa dos 4 anos. Será que consigo?”.

(Achei a ideia da Mia tão boa que se por aí existirem mais crianças com disponibilidade para fazer desenhos com mensagens bonitas para outros meninos da mesma idade – desenhos que permitam apenas partilhar: “Eu sei que existes!”, “Pensei em ti!” e talvez também… pulseiras da amizade  – e se me entregarem até início de Janeiro, levarei tudo comigo. Também levarei outras coisas mas ainda aguardo a lista das necessidades actuais e mais urgentes. Prometo entregar mão na mão e fazer uma roda de alegria).

Quem quiser participar envie, por favor, um e-mail para joanasp.edit@gmail.com ou mensagem pela página do Hotel Globo no Facebook.

Obrigada

|ENG|

“Have you told Mia?”, journalists and friends asked me. The question was already in my head. I’ll travel twice in a short period of time – for the start of the Civil March for Aleppo in Berlin and as a volunteer to work in a refugee camp in Greece – and I was uncomfortable with the idea of leaving without explaining her the reasons for these trips. But how to talk about Syria, the civil march for Aleppo and the refugee camps to a child?

Normally we try not to hide reality from her even if it is hard, and we avoid fantasizing too much about the facts from which we can not escape. And war is a fact, it happens in our world, in the world we live in, where she lives. I desire, above all, that in the future she would be a happy adult, but also empathetic, supportive, informed and critical. For this, there is no great margin for ignorance, for omission. So how to approach the subject without alarmism or too much detail? Without much thought about the pros and cons I gathered photos (the most tender ones I could find on the internet) of children living in refugee camps.

I did not choose pictures of children with a sad or lonely face but I wanted her to visualize the geography of the fields, the beaten field, the tents, the absence of a cozy space. I didn’t tell her about bombs, attacks, deaths, the wounded, the orphans. I chose to tell her about the loss of rights. I told her that those children and their families had to flee their destroyed houses and now have to live in those tents every day, and they have no school to go to, no toys, no supermarkets or a kitchen for the parents cook their meals, or gardens and playgrounds.

“They don’t have a home, mom? They don’t go to school? But they are children just like me, I’m sorry, but that just doesn’t make sense, mom! “… I told her that was exactly what I thought and that I was going to try to help a little bit in a place like those camps in the photos. And also, along with many more people who thought exactly the same as us, I will go to a city called Berlin and try to get the attention of very important people. I told her there are people in the world who could talk to each other and solve that horrible and unfair situation, but perhaps they needed to be reminded that it was the right thing to do. She got up off the couch and looked away, “Mom, I don’t think I want you to go … What if the people who destroy the children’s homes also hurt you?” …

Then we looked the world map, I told her about the Kurdish boys who make the paper kites fly the highest I have ever seen, I pointed to Turkey, Syria, I told her about the boats that sail in the Mediterranean, Greece, I showed her the distances between the points. She quieted down. And she asked me to tell her this all over again and repeat then repeat it several times. I wondered, did I do something wrong, did I create too much anxiety, should I have kept quiet and said that I was just going to do some work? She quieted me down the moment she came up to me and said: “Mom, I’m going to do some drawings  for you to take to the children in those pictures. And maybe I could also make some friendship bracelets too, like the one my friend Rita offered me at my four-year-old party. Can I?”

(I think Mia’s idea is so good that if there are more children out there who would like to make some drawings for other children – drawings that would allow sharing messages such as “I know you exist!”, “I thought of you!” and maybe also … friendship bracelets – and if you send me those until early January, I’ll take everything with me to Greece. I promise to give it hand in hand.

If you want to participate, please send an email to joanasp.edit@gmail.com or message through Hotel Globo Facebook page.

Many thanks!

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