7 ideias para ajudar a Síria

1923170_60443091874_489265_n-2Escola curda em Mardin, 2008

“Como posso fazer para ajudar a Síria?” 

É uma pergunta que me fazem ao segundo nos últimos dias. Juntei aqui algumas ideias que tenho partilhado avulso.

1. Informem-se. Em consciência e com responsabilidade. Não ficar pelas peças de três minutos que passam na televisão. Ler jornais e, sobretudo, procurar meios de informação alternativos. Ter consciência que, por desconhecimento ou intencionalmente, nos têm andado a mentir muito nos meios tradicionais. Não partilhar qualquer coisa nas redes sociais sem reflectir primeiro. Estar bem informado dá muito trabalho mas a solidariedade começa por aí.

2. Doar dinheiro. Percebo que gente de bem queira sentir-se melhor mas fazendo uma pesquisa rápida podem perceber que entidades como o ACNUR têm à partida todos os anos um orçamento de 3 mil milhões de dólares. Isto só à partida… A UNICEF, mil milhões. Lamento dizer mas por mais fantástica que a Angelina Jolie seja, e é, nenhum cêntimo desses milhares de milhões serviu para impedir que uma criança – Aylan Kurdi, ainda se lembram? – morresse na praia. Nem para impedir nenhuma das outras mortes de homens, mulheres e crianças que acontecem diariamente na Síria. Nem para impedir que haja milhões de crianças a crescer em campos de refugiados sem nunca terem ido à escola. Nunca vai servir. O dinheiro não resolve a maioria dos problemas do mundo, é sim a causa deles. O problema está a montante. Talvez seja mais eficaz começar a questionar isto tudo a sério. E volto à informação. Quem fabricou a guerra na Síria? Quem facilitou a entrada de armamento de peso no país? Qual o papel da NATO no meio disto? Quem financia a guerra? Quem elege os governos dos nossos países ocidentais tão democráticos e desenvolvidos – Estados Unidos, França, Alemanha – que decidem o que se vai passar no resto do mundo? Quem os escrutina? De onde vem o petróleo e o gás? Lembram-se da Cimeira dos Açores, da Guerra do Iraque, lembram-se daquela fotografia sinistra de Durão Barroso, George Bush, Tony Blair e Jose Aznar? O motor de arranque de toda esta tragédia começou aí, em busca de armas de destruição maciça que nunca apareceram. A comunicação social mainstream foi na “conversa”. Todos fomos. E aí começou a escarafunchar-se naqueles equilíbrios periclitantes (religiosos, sociais e culturais) que existem e existiam na região e que nos levaram à situação actual.

Ainda assim, se quiserem contribuir monetariamente, deixo aqui algumas organizações. Mas, uma vez mais, façam a vossa própria pesquisa.

Oxfam Syria – https://www.facebook.com/Oxfam-in-Syria-1440715602810597/?fref=ts e https://www.oxfam.org/en/emergencies/crisis-syria

Red Cross e Red Crescent – https://www.facebook.com/IFRC/?fref=ts e http://www.ifrc.org

Jesuit Refugee Service – https://www.facebook.com/JesuitRefugeeService/?fref=ts e http://en.jrs.net

sirios-em-fugaPopulação síria em fuga

3. Ajudar os refugiados em Portugal. O nosso país recebeu até ao momento 720 refugiados e o processo é considerado exemplar. Estive a semana passada no Alto Comissariado para as Migrações e acredito que devemos ficar orgulhosos do trabalho que está a ser desenvolvido. Mas, note-se, a quota portuguesa é de 5000 refugiados e poderá ser preenchida nos próximos anos. O que significa que há aqui um enorme desafio da sociedade para multiplicar esse bem acolher e integrar.

O que é possível fazer? Mais uma vez, envolvam-se, informem-se: junto dos munícipios perguntem se vão receber refugiados na vossa área de residência e o que podem fazer para ajudar. Dar roupa e outros bens é muito útil mas há mais acções de proximidade que podem ser feitas. Algumas sugestões:

Conhecer a cultura sentados a uma mesa e participar num jantar sírio: https://www.facebook.com/paoapaoproject/

Ensinar português, em contexto social (ir a um café, ir a um supermercado) a um refugiado: https://www.facebook.com/refugeewelcomeportugal/

Outras instituições que estão a apoiar o acolhimento e a integração e que podem necessitar de contributos variados. Perguntar, pedir informação e depois contribuir:

http://www.ump.pt/inicio/noticias/refugiados-ump-e-sef-assinam-memorando-de-entendimento

http://jrsportugal.pt 

E reajam. Cada vez que alguém ao lado diz: “primeiro devemos ajudar os nossos”, cada vez que alguém tem um discurso xenófobo, racista, mal informado, de ódio: reajam. Com argumentos fundamentados, com humanidade, com ternura até mas não se calem. Solidariedade também é isto.

menina-siria-num-campo-de-refugiados-na-jordaniaMenina síria num campo de refugiados da Jordânia. Foto de Melih Cevdet Teksen

4. Inscrever-se como voluntário num campo de refugiados. Perguntem-se primeiro se estão preparados para o embate, para as condições que vão ter de enfrentar e, depois, pesquisem bem as organizações que estão no terreno. Lembrem-se que pedir dinheiro a um voluntário não é ético.

Qual a organização pela qual vou? Depois de me ter inscrito como voluntária em Portugal e não ter recebido resposta por parte das entidades que contactei (tenho descoberto agora que não sou caso isolado), procurei uma ONG aqui: http://www.greecevol.info

5. Ir um protesto que esteja a decorrer na vossa cidade. Ou então criar um movimento. A Marcha Civil por Alepo – Civil March For Aleppo da qual faço parte começou por um post de desabafo e revolta no Facebook escrito por uma jornalista polaca de 32 anos – Anna Alboth – que juntou à volta do mesmo objectivo 50 pessoas e já chegou a muitos milhares pelo facebook e media mundial. Por causa disto, deste envolvimento, curiosamente conheci pessoas que são minhas vizinhas, moram no mesmo bairro, temos filhas a andar nas mesmas escolas mas não nos conhecíamos. Agora sabemos que partilhamos uma preocupação, uma causa, e é a união de pessoas diferentes mas com um mesmo objectivo que cria um movimento.

rota-cmfa

6. Descobrir qual deverá ser o nosso movimento mais de fundo. Uma amiga perguntava-me no outro dia: “Como escolher um lado? Quem devemos apoiar? Qual deve ser “nosso” movimento mais de fundo para restabelecer a paz? Se nas sociedades humanas não há vazios de poder, que poder devemos apoiar?”

Enquanto tentamos escolher lados, enquanto tentamos perceber e intelectualizar as forças em disputa no cenário insano e trágico de uma guerra, o mal já está quase todo executado. O nosso movimento mais de fundo, como sociedade, deve estar muito antes disto. A intervenção externa foi um erro, como sempre se comprova cada vez que o Ocidente quer salvar o mundo de tiranos e opressores.

Em 2008 tive a sorte de visitar a região do curdistão turco, mesmo na fronteira com a Síria. Algumas pessoas que estavam comigo, acabadas de vir da Síria, descreviam o país como um lugar lindo, único a vários níveis, com a coexistência pacífica entre muçulmanos, curdos, cristãos e todas as variantes destes (nem sempre assim foi como comprovam os registos históricos de inúmeras batalhas em Alepo). Havia contestação, movimentos de pessoas com bons valores que desejavam outro rumo para o país, mas havia também uma população contente com o seu Governo.

Como quantificar os que estavam de um e do outro lado? O que interessa isso comparado com a pergunta: quem os arrastou, a todos, para este horror de um momento para o outro?

O nosso movimento tem de ser o de rejeitar que meia dúzia de pessoas – que nós elegemos, pagamos e supostamente nos representam – se sente um dia a uma mesa e decida entrar num conflito que vai levar à morte brutal ou à sobrevivência sofrida de milhões de crianças, homens e mulheres. Entrar num conflito para obter dividendos políticos, geográficos, económicos, financeiros. Em contrapartida há nos campos de refugiados crianças sem pais, sozinhas, vulneráveis, à mercê do tráfico humano, há adolescentes e jovens adultos revoltados porque a morte, a guerra e o sofrimento são a sua única forma de vida.

Com que legitimidade os “nossos” políticos nos conduzem a isto? Com que legitimidade nós os deixamos fazer isso? Questionem-se na hora de votar. Questionar é uma forma de solidariedade. E pensar em formas de agir que podem até começar nas redes sociais mas têm de transbordar do facebook para a rua. Talvez , voltando à pergunta da minha amiga, nas sociedades haja sim vazios de poder, cada vez mais até, vazios que estão preenchidos por uma massa gigantesca de pessoas que ainda não sabe que tem esse poder. Assumir a nossa quota de poder é o desafio de cada um.

7. Abrir-nos ao mundo. Educar os nossos filhos para conhecer o mundo, para uma cidadania sem fronteiras, para compreender que o globo não está dividido entre “nós” e “eles”, entre “uns” e “outros”. As crianças da Síria, da Eritreia, da Palestina, do Iraque, da Birmânia, do Nepal, são iguais a todas nos desejos e nos direitos que devem ter. Se desde pequenos as crianças começarem a ter esta noção talvez cresçam com uma visão – e acção – diferente daquela que foi a nossa.

Para finalizar, é possível que o tomar de qualquer uma destas acções acima indicadas não nos faça sentir muito melhor, é bem provável até que cause uma angústia suplementar mas foram vocês que perguntaram o que realmente podiam fazer além de partilhar posts no facebook e doar roupa…

Um pensamento sobre “7 ideias para ajudar a Síria

  1. É realmente difícil dar respostas pragmáticas em questões tão complexas, por isso, muito obrigada pela reflexão aqui deixada, espero que dê (acho que vai dar) alguns frutos!

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