City Plaza Hotel: a solidariedade tem uma morada

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Cristian é chefe de cozinha e interrompeu a sua vida profissional para ajudar os refugiados. Desde Abril de 2016 o seu posto de trabalho é a cozinha industrial do City Plaza Hotel, um hotel no centro de Atenas que foi construído para os Jogos Olímpicos de 2004 mas esteve abandonado durante sete anos. Nessa altura, um grupo de activistas gregos ocupou-o e resolveu fazer deste lugar uma casa para 400 refugiados, metade dos quais crianças.

Um grupo de crianças brinca na sala e, ao ver Cristian, uma menina levanta de imediato as mãos pequeninas em direcção ao tecto e movimenta-as para cima e para baixo, ele percebe o sinal, pega-a ao colo e atira-a ao ar várias vezes até ficarem os dois tontos de rir. Cristian trabalhou como chefe de cozinha em Londres, na Austrália, na Sérvia e vivia na Eslovénia quando decidiu voltar à Grécia para ajudar os refugiados. “Quis vir e ajudar. Porque havia gente que precisava. E é uma obrigação moral ajudar alguém que precisa”, justifica. Era para ficar apenas um mês e começou a distribuir refeições numa carrinha. A polícia andava sempre a patrulhar e, devido a essa pressão, alguns grupos de activistas decidiram organizar-se em brigadas de apoio aos refugiados.

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Uma dessas brigadas ocupou o City Plaza Hotel. No centro de Atenas este hotel com sete andares e 92 quartos foi construído com o apoio do governo para os Jogos Olímpicos de 2004, mas a crise económica grega atirou-o para o abandono durante sete anos. Em Abril de 2016, uma iniciativa solidária ocupou o hotel e decidiu transformá-lo num espaço de habitação condigna para os refugiados. O proprietário ainda tentou impedir a ocupação mas o governo grego acabou por decidir não intervir. Hoje, neste hotel ocupado e auto-gerido por activistas em Atenas, vivem cerca de 400 refugiados, metade dos quais são crianças. Cada família tem o seu quarto, recebe três refeições por dia, produtos de higiene e roupa. Vêm da Síria, Afeganistão, Irão, Iraque, Palestina, Paquistão, Curdistão.

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Não dependem de apoios de organizações não governamentais nem do governo, apenas dos contributos de particulares e assim pretendem continuar. São críticos dos poderes instituídos e criados para resolver a crise dos refugiados. “A União Europeia e diversas ONG receberam, e recebem, biliões de euros para lidar com esta situação e não estão a fazê-lo. Basta olhar para as pessoas que estão a viver agora em tendas ao frio nas ilhas gregas. Para onde vai e foi todo esse dinheiro? Nós somos um pequeno grupo de pessoas e estamos a garantir o bem-estar de 400 pessoas”.

Cristian não pertence a nenhum grupo político mas grande parte dos activistas – muitos estudantes universitários – vêm de grupos da esquerda grega e têm um programa de acção definido. “É com a luta comum por exigências concretas, e não por declarações humanitárias gerais e inconsequentes, que as mudanças ocorrem nas sociedades. É dessa forma que o espaço de acção da extrema direita torna-se limitado e que surge uma frente comum contra o preconceito e o racismo”, asseguram.

O City Plaza assume-se como “um acto de resistência” em relação às políticas migratórias na Europa, ao acordo entre a União Europeia e a Turquia que classificam de “vergonhoso” e uma “armadilha” para milhares de refugiados nas ilhas gregas a quem é imposto “um sistema de detenção, deportação e suspensão do direito de asilo”.

Ao contrário do que se passa nas ilhas gregas ou na Sérvia, o City Plaza Hotel tornou-se um lugar de abrigo confortável e digno para quem espera – e desespera – pelos papéis que lhe vão permitir recomeçar a vida algures.

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Chega, entretanto, ao pé de nós um grupo de cinco crianças vindo do exterior que pede para ir ao quarto 305 visitar uns amigos. “O meu nome é Amirah”, diz uma menina com ar espevitado. O grupo passa a recepção e sobe. Os “hóspedes” do 305 fazem parte das quase mil pessoas que já passaram por aqui. Alguns decidiram voltar para os seus países depois de esperar meses sem solução à vista, outros foram deportados, outros conseguiram asilo, vistos e foram colocados noutros países. “Mas na Grécia ninguém quer ficar. Todos procuram a Alemanha, a Suíça, a Noruega, a Suécia”, resumem os activistas. Paradoxalmente, é num país que continua a debater-se com uma forte crise económica, com uma taxa de desemprego de acima dos 20% e uma taxa de desemprego jovem de 40%, que projectos solidários como estas brigadas têm crescido.

No City Plaza, activistas e refugiados aprendem diariamente a gerir um hotel habitado por dinâmicas culturais muito diversas. “Ao início a nossa gestão era desorganizada e caótica. Agora estamos a melhorar. Havia medo da polícia e também de ataques de grupos de extrema-direita”, garantem enquanto vão chegando à recepção caixotes com alimentos que foram doados por vários particulares. O hotel tem vigilância 24 horas por dia devido às constantes ameaças de grupos de extrema direita grega como a Aurora Dourada. Ataques de neo-nazis já aconteceram em outros espaços de acolhimento de refugiados como, por exemplo, o Notará 26, também em Atenas, ou no campo de Souda, na ilha de Chios.

Graças aos voluntários – preferem o termo “participantes” – são organizadas actividades variadas. No dia em que lá fomos havia aulas de dança hip hop para os adolescentes e massagens para as mulheres residentes. Numa sala crianças faziam desenhos e no bar preparava-se um campeonato de jogo das damas. Um grupo de médicos presta auxílio no espaço mas os organizadores estão em contacto com os hospitais públicos sempre que necessário.

Cristian garante que vai ficar a gerir a sua cozinha “três estrelas” até Maio e, depois, voltará ao trabalho na Eslóvenia. Ao volante de uma carrinha de comida de rua irá atender a multidão que frequenta festivais de música, dança e cinema. Provavelmente os seus clientes nunca vão saber que, durante mais de um ano, alimentou diariamente centenas de homens, mulheres e crianças num hotel feito de solidariedade.

Para mais informações e como contribuir com doações ou voluntariado: https://www.facebook.com/sol2refugeesen/?fref=ts

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