Diário de Chios #2

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Foi na fila para a distribuição da comida que vi a E., mulher esguia com uma barriga cheia e redonda. A minha função, na fila das mulheres, era verificar quantas refeições estão inscritas em cada cartão e passar a informação ao colega ao balcão. Geralmente há cinco, quatro, seis, oito pessoas por cartão, as famílias tendem a ser grandes. Quando olhei para o cartão da E. estranhei ver apenas o número “1”. Meti conversa.

E. está sozinha e grávida de sete meses. Disse-me que se sentia fraca porque tinha ido fazer análises ao sangue. E que vinha da Nigéria. Disse tudo isto com um ar triste e só sorriu quando lhe disse que vivi em Angola. Mais tarde procurei-a no meio do cenário desolador das tendas do campo de Souda e quando a encontrei, convidou-me a entrar. Sentei-me ao seu lado, no pedaço de chão com um cobertor cinzento com o símbolo estampado do Alto Comissariado das Nações Unidos para os Refugiados que lhe faz de cama. Fiquei a saber que chegou ao campo de Souda no dia 1 de Janeiro vinda da Turquia. Recuámos à sua vida na cidade de Benin por onde os portugueses andaram no século XV no comércio de pimenta e marfim. Séculos depois, a sua mãe fazia do comércio um modo de vida e tinha uma loja onde, durante a infância e adolescência, E. ajudava enquanto sonhava ser jogadora de futebol. “Gosto muito de futebol, jogava muito bem na escola mas os meus pais nunca acharam que fosse futuro”.

E. cresceu e aos 24 anos o futuro não era prometedor: na Nigéria, maior produtor de petróleo de África, não conseguia encontrar trabalho. Certo dia foi abordada no mercado por uma mulher que lhe disse ter uma loja de produtos africanos em Istambul, na Turquia. “Vem trabalhar comigo. A minha loja tem grande sucesso. Não te vais arrepender”. E. voou de Lagos para Istambul. Depressa ficou a perceber que não havia loja alguma, havia antes um quarto onde era obrigada a prostituir-se. Recebia ameaças de morte, de clientes e da proxeneta, tiraram-lhe o passaporte, chorava e tinha dores diariamente. E. entrou numa rede de tráfico de seres humanos, a escravatura do século 21. E. não diz isto assim, não diz que foi vítima involuntária de exploração sexual ou de prostituição forçada, porque estas são nomenclaturas para debater conceitos vagos de coisas a que os ricos chamam de “direitos humanos”. E. fugiu dessa vida. No bairro conheceu um nigeriano que lhe apoiou numa altura de vulnerabilidade, ficou grávida. Voltou a reencontrar a mulher que a enganou. “Fiz-te feitiço. Se não voltares a trabalhar para mim, verás”. Pouco depois, em Outubro, E. recebeu a notícia de que a mãe morreu na Nigéria. Sentiu medo, sempre quis ter filhos e decidiu que este filho seria a prova de que o feitiço não resultou. “Saí da Turquia para salvar o bebé”. A fuga de Istambul foi feita num autocarro e, na costa, apanhou um barco com cerca de 45 pessoas para chegar até à ilha de Chios no Mar Egeu.

Entre muitos refugiados e organizações no terreno, oiço frequentemente histórias de mulheres migrantes que engravidam de propósito a pensar que assim não lhes será negada entrada na Europa. Sem juízos de valor e correndo todos os riscos, penso como tantos e tantas têm em tão baixa consideração as mulheres e em tão elevada consideração a Europa.
E. não sabe onde vai nascer e viver o seu filho ou filha mas tem sonhos. Seja na Alemanha, onde diz ter uma irmã, cunhado e sobrinha ou noutro lugar onde “não se sinta um peso para terceiros”. “Posso trabalhar em qualquer coisa. Se me ensinarem consigo fazer qualquer trabalho. Só quero cuidar do meu filho”. E, talvez um dia, conhecer Paris. “Deve ser uma cidade linda, Paris”.
Ainda nenhuma entidade oficial veio falar com E. sobre a sua situação ainda que hoje, por exemplo, uma representação da União Europeia tenha estado de visita ao campo por breves minutos.
Pergunto se posso ajudar em alguma coisa para lhe tornar a vida menos penosa e sugere vegetais que não chegam ao campo. Sorri quando pergunto de que comida gosta e se lembra do equivalente nigeriano ao funge.
Tem um livro de cabeceira que, neste caso, está debaixo da almofada. “É a Bíblia. Abro numa página ao acaso e fico a ler”, contou-me. Talvez seja o passado distante que me une a E. que influencia a sua escolha literária. Em tempos a coroa portuguesa enviava missionários cristãos para a cidade de Benin e, até ao final do século 19, muitos residentes da cidade nigeriana falavam mesmo um derivado do português. Quando já estava de saída da tenda pedi a E. para abrir a bíblia numa página ao acaso como costuma fazer e ler em voz alta. Acedeu ao meu pedido.
– “Salmo 23. O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”.

Campo de Souda, ilha de Chios, Grécia, Mundo 2017

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