Diário de Chios #3

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Quero apresentar-vos a Rihanah, o Zafar, a Selina e o Mahadi. Vivem na tenda nº8 do campo de refugiados de Souda. Foi aqui que me contaram a sua história de vida, o percurso que os trouxe do Afeganistão até Chios, até esta tenda onde, apesar de refugiados, me ofereceram um chá e amendoim torrado. O filho mais pequeno, 1 ano, está a dormir. Tem uma respiração ofegante por causa da gripe e febre. Selina, 5 anos, aninha-se ao meu lado, pousa a cabeça no meu colo, sinto-lhe o cabelo macio como o da Mia. Ficamos juntas durante todo o tempo enquanto os pais falam comigo, enquanto os pais falam connosco.

“Acham que somos terroristas? Acham que somos Al Qaeda? Por que não nos deixam entrar nos vossos países? Vimos na esperança de conseguir asilo. Acreditamos que também somos pessoas. Que somos seres humanos. Queremos ser livres, merecemos ser livres. Por que estamos mantidos aqui como prisioneiros? Por que não podemos entrar na Europa?”

Alguém tem resposta para as perguntas da Rihanah e do Zafar?

Esta família veio do Afeganistão onde eram criadores de gado. Sentem saudades de casa mas não tiveram escolha. Fugiram dos Talibã e do Daesh, de um lugar onde a meninas como Selina é negado ter uma educação, ter acesso a dinheiro, ir ao médico ou sair de casa sem correr o risco de ser violentada. “Os talibãs mataram a minha mãe e o meu pai. Condicionaram-me a uma vida sub-humana. A vida humana não tem qualquer valor no Afeganistão. As nossas vidas estiveram em risco. Vimos muitos dos nossos entes queridos serem mortos. Temos uma guerra no Afeganistão há cerca de 30 anos. As pessoas são mortas sem qualquer razão”, contam.
Foi disto que fugiram. Do Afeganistão rumo ao Irão. Nesta primeira etapa da viagem contam como “os traficantes arriscam a vida para nos fazer passar a fronteira porque atiram a matar a quem tenta atravessar o país. Graças a Deus, conseguimos. Estivemos lá três ou quatro dias e depois fomos para a Turquia”. Atravessaram ribeiros, caminharam durante quatro horas no escuro da noite pelas montanhas, com os filhos ao colo e às cavalitas, até chegar ao sítio onde estava o barco. O próximo destino era a Grécia, o último patamar para chegar “ao santuário da Europa”. “Viemos de um país pobre, não estamos à procura de facilidades. Somos pessoas sérias”.

Em Chios a vida continua a não dar tréguas a esta família. Estão aqui há dois meses. Não têm papéis, ainda não foram entrevistados para o pedido de asilo. Vivem sem electricidade, com temperaturas baixas e negativas que fazem as crianças tremer de frio à noite, chuveiros de onde só sai água fria. Não se sentem seguros. O barulho no campo é constante durante a noite até de manhã, as pessoas discutem, as crianças têm medo. Concluem o óbvio que só os burocratas da União Europeia e das Nações Unidas, que visitam o campo amiúde e por breves minutos, não enxergam: “Estas não são condições para crianças viverem”.

O que desejam para o futuro?

“Em qualquer lugar posso construir uma vida como aquela que tinha no Afeganistão. Quando aqui cheguei comecei a entender o valor da vida. Apercebi-me que sou um ser humano. A minha vida tem valor. Preciso de sobreviver para encontrar a minha liberdade e ser feliz. Posso fazer qualquer trabalho, em qualquer país que nos aceite. Só quero que os meus filhos estudem e tenham uma boa vida”, diz Zafar.

“Queremos asilo, queremos estar em segurança e que as nossas crianças recebam uma educação. Não é pedir muito”, diz Rihanah.

Selina, encostada a mim, vai ouvindo a conversa e interrompe os pais para dar o seu contributo: “Queremos uma casa!”. E porque uma mãe quer sempre o que os filhos desejam, Rihanah corrobora: “Sim, gostaríamos de ter uma casa”. Uma casa, talvez, onde possa fazer o seu próprio pão e outras iguarias, como fazia antes.“Consigo cozinhar para 40 ou 50 pessoas apenas com alguns tachos e panelas”, assegura.

Para onde querem ir?

“Para qualquer país onde nos seja concedido asilo e onde possamos dar uma vida decente aos nossos filhos”.

Saio da tenda. Registo o encontro quando se despedem de mim à porta. Caminho por entre as tendas do campo mais desolada do que nunca desde que aqui cheguei. Um turbilhão de pensamentos. Penso em como os quatro são uma família carinhosa, sempre sorridente no campo, sempre disposta a ajudar os voluntários em qualquer actividade, penso em como aquelas duas crianças são felizes e emocionalmente saudáveis apesar deste drama. Penso no esforço sobre-humano que Rihanah e Zafar devem estar a fazer para conseguir gerir esta situação o melhor possível e conservar intacta a infância dos filhos. Penso como são verdadeiros heróis por o estarem a conseguir fazer de uma forma tão digna. Mas também penso como esta sua missão está a ser tão solitária e como o mundo lhes está a falhar. E em como sinto tanta vergonha.

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