Diário de Chios #4

yosra

No jornalismo há algo a que se chama o critério de proximidade. É um critério utilizado na escolha de publicação de notícias. Que valor tem determinada notícia? Qual o interesse que determinada notícia poderá ter para o público? O critério da proximidade dá uma resposta possível e parte da premissa que assuntos próximos ao leitor geram maior interesse do que factos acontecidos a quilómetros de distância. A prática confirma-se: para a imprensa ocidental 100 mortos em Beirute valem bem menos do que 10 mortos em Paris. E depois, além da geografia física há a geografia emocional e, aparentemente, ‘empatizamos’ mais com uma realidade com a qual nos podemos identificar. E na Europa é, convenhamos, difícil sentir empatia com os refugiados. O pensamento comum é de que são pessoas cuja realidade não é a mesma da nossa em termos de conforto, educação, condições económicas e sociais. Tendemos a pensar que fogem de vidas miseráveis e que, por isso, são mais fortes e resistentes nas condições cruéis de um campo sem água, luz e com senhas de refeição racionadas. Geralmente não pensamos nos refugiados como alguém que já teve um bom emprego, frequentou a universidade, levava os filhos à escola, tinha acesso a hospitais, frequentava bares e restaurantes. É senso comum. Por isso gostava de vos contar como de todas as vezes que converso com Yosra sinto-me a olhar ao espelho. Sinto que o critério da proximidade toma-me de assalto. Eu podia ser esta mulher. Esta mulher podia ser qualquer uma de vocês que está a ler este texto.

“Ninguém na minha família alguma vez pensou que isto iria a acontecer. Ninguém espera que uma tragédia destas aconteça na nossa vida”. Yosra tem 30 anos. É licenciada em Engenharia Agrícola e tem uma especialização em Fruticultura. Vivia na cidade de Deir al-Zor nas margens do Rio Eufrates, uma das regiões agrícolas mais férteis da Síria além de rica em recursos subterrâneos como petróleo e gás. A cidade está hoje cercada pelo ISIS/Daesh. Os pais de Yosra, a avó de 90 anos e outros familiares ainda lá estão e conversam todos pelo whatsapp. Estão encurralados. Yosra fala árabe, inglês e alemão. Tinha tudo preparado para fazer um intercâmbio cultural numa universidade alemã para aperfeiçoar a língua quando a guerra começou. As relações entre a Síria e a Alemanha ficaram suspensas e o intercâmbio também. O marido é engenheiro mecânico. Tiveram, em tempo de guerra, duas filhas lindas de cabelos encaracolados, uma com ano e meio, outra com quatro anos.

Vejo Yosra todos os dias desde que cheguei, chamou-me a atenção o vestido cor-de-rosa bonito e um sorriso aberto que nunca esmorece. Menos hoje. Hoje encontrei-a quando ia a caminho do contentor onde fica o posto médico. A filha mais nova teve febre durante a noite e muita tosse. O médico ainda não tinha chegado e ficámos a conversar enquanto esperávamos. Caia uma chuva miudinha. Talvez fosse da espera, talvez fosse da chuva, talvez fosse da preocupação com a filha, talvez fosse das minhas perguntas parvas – Como era a tua vida na Síria? O que fazias? Quais eram os teus sonhos? – mas as lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto.

O médico chegou entretanto e eu fui para as minhas tarefas diárias, arrependida de ter obrigado alguém a pensar em lembranças tão penosas. Mais tarde, quando vou a sair do campo e a passar junto às tendas, Yosra vê-me e convida-me para um chá na sua tenda. A filha mais nova já está medicada e o sorriso de sempre voltou. Estava a dar banho às duas filhas num alguidar com água aquecida numa chaleira que ia colocando numa caneca. Durante o banho das meninas viajámos até ao bairro de Tadamon, em Damasco, onde a sua casa foi destruída por um bulldozer nas lutas para marcar terreno entre o exército sírio e os rebeldes. Contam como se mudaram para a sua cidade-natal, Deir al-Zor, onde é o ISIS quem controla. Yosra defende que a maioria desses combatentes que foram fazer a guerra do seu país não eram sequer sírios mas vindos de outros países para combater atrás de promessas de dinheiro e de mulheres que raptam e vendem. Yosra e família aguentaram o mais possível até que fugir parecia a opção para salvar as suas filhas. Partiram a pé pelas montanhas com as crianças ao colo, uma mochila com roupa e o telemóvel. Estão em Chios desde Novembro. Apesar de serem uma família, das crianças, de uma condição de saúde especial não existe uma perspectiva em relação a quando vão sair daqui. Têm uma entrevista em Março em Atenas mas não sabem quando deixarão a ilha no mar Egeu. “Todos os dias há uma nova legislação”, desabafa.

Yosra tem medo de algo que todos falam no campo. Do sinistro acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia, que permite à Grécia enviar todas as pessoas recém-chegadas às ilhas de volta à Turquia, incluindo os sírios que estão a fugir da guerra no seu país. A medida também propõe um sistema em que um refugiado sírio será admitido na Europa por cada sírio que chegar à Grécia e for deportado para a Turquia. Em troca, a UE prometeu destinar 6 mil milhões de euros em ajuda humanitária para o país turco. O drama dos refugiados tornou-se um negócio abjecto. Os habitantes do campo de Souda são moeda de troca.

Yosra e o marido têm muitos familiares espalhados pela Alemanha, na Saxónia, Bremen, Hannover. Podia ser uma hipótese para o recomeço da vida. Fala também da Grécia “onde a crise económica torna difícil a vida aos próprios gregos”. O que fazer não sabe. “A Síria é o país mais bonito do mundo. Se a guerra acabasse hoje, amanhã voltava para lá”, diz a rir. “Hoje o médico desejou que saíssemos daqui rápido. Disse que gostaria de me ver, em breve, num país da Europa, eu disse-lhe: ‘não! eu gostava de o ver a si na Síria’”. Yosra conta isto a sorrir. E é impossível não sorrir quando ela o faz.

Com o chá quente à nossa frente, com os relatos emotivos da sua terra natal, hesito mas decido procurar no telemóvel imagens da cidade que deixaram. Yosra vê a ponte-suspensa construída pelos franceses nos anos 20 e, entretanto, destruída nos bombardeamentos. “Durante cinco anos atravessei-a todos os dias para ir para a universidade”, relembra entusiasmada. A praça principal baptizada de 8 de Março onde foi derrubada a estátua de Basil al-Assad, irmão de Bashar, no início da revolta. O memorial que assinalava as “marchas da morte” do genocídio arménio e foi destruído pelo ISIS. O Rio Eufrates e os campos verdejantes e fertéis. Ao lado das imagens antigas estão fotografias de uma cidade feita escombros. “Olha como ficou a minha cidade…”, aponta para as fotos. Detém-se numa em particular: uma rua só com lojas de perfumes onde costumava ir. O irmão de Yosra foi ao centro da cidade depois dos bombardeamentos, passeou naquela rua e contou-lhe sobre o cenário de destruição que encontrou: os estilhaços de vidros, os edifícos desventrados, os blocos de pedra partida, os pedaços de metal, a poeira, os despojos. E a envolver tudo isto o improvável, o surreal, o mesmo aroma intenso a perfume de sempre…

Durante o chá que bebemos perguntei na tenda-contentor que lhes serve de casa o que podia fazer para a ajudar. Será que precisariam de algo. Agradeceu mas disse-me que não, de nada. Só há uma única coisa que Yosra e a família precisam muito: sair daqui, sair de Souda, sair de Chios. O mais rápido possível para que as suas vidas suspensas, aqui encurraladas, à espera de entrevistas com burocratas, possam seguir em frente. Yosra em árabe significa que depois da tempestade virá a bonança. E nada disto pode ser em vão.

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