Diário de Chios #5

zico

“Não tem maka”, disse-me Zico, 25 anos, quando pedi para o entrevistar. Não tem maka. Fui reencontrar a expressão angolana no campo de Souda. Quais as probabilidades disto acontecer? Todas. Chios é uma Torre de Babel onde se falam todas as línguas. E foi sem maka, ou seja, sem qualquer problema, que fiquei a saber que Zico nasceu em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

O que faz Zico aqui se vem de um país rico? Sim, rico. A República Democrática do Congo é rica em minérios e tem 80% das reservas mundiais de coltan, mistura de dois minerais cobiçada pelas grandes multinacionais para construir mísseis, telemóveis, computadores. Por outro lado, a RDC é também um país onde as tensões políticas têm sido intensificadas e líderes políticos, religiosos, activistas, estudantes levantaram-se contra o facto do presidente Joseph Kabila querer manter-se no poder, desafiando a limitação constitucional. A RDC tem ainda um dos menores índices de democracia do mundo e um dos mais elevados de corrupção. Na RDC a oposição e a violência estão na rua. O país de Zico vive um caos mas muitos lucram com este caos. Zico não é um deles.

Viver na RDC não é fácil para um jovem. Ele ainda tentou fazer o curso de estudos de comércio mas não tinha dinheiro para continuar. “Jovem não pode ficar parado, tem de trabalhar, se fica parado a “panela entra em greve”, diz, recorrendo de novo à gíria angolana. E, assim, teve de esquecer o sonho de aprender a teoria para se contentar com a dureza da prática. Foi na cidade fronteiriça do Luvo, em Angola, que encontrou uma forma de ganhar a vida.

Desde 1986 que este mercado transfronteiriço foi orientado para as transacções comerciais à base de permutas. Uma embalagem de leite Nido de Angola em troca de uma grade de cerveja do Congo. Cremes de beleza do Congo “para as mulheres ficarem mulatas” pelos jeans de Angola. Foi assim que ao francês e lingala que fala teve de juntar o português.

“A língua portuguesa é muito bonita, gosto muito de falar português, mas o português que eu falo não é da escola, é da rua…Aprendi para vender mais cremes”. Pergunto-lhe como fazia e, de repente, fecho os olhos e não estou em Souda mas num mercado de rua em Angola:

“Moça, menina, ‘faz favore’, ‘qués quê?’, ‘você é muita linda’, e elas respondiam: ‘não me chama assim não sou tua mulher!’ e eu dizia ‘como é? Tou só a ser ser carinhoso’ e elas diziam: ‘vai ser carinhoso na tua vida, na minha não!’. Gosto muito de falar português. Mas aqui não estou a praticar. Será que consegues umas músicas angolanas e portuguesas para eu praticar?”.

Em cada dia de vendas Zico facturava entre 6 a 10 mil kwanzas mas nem tudo era lucro, ainda tinha de pagar ao fiscal, as ‘gasosas’, as despesas.

As razões e os detalhes do percurso que Zico fez para ir de Kinshasa a Istambul, de avião, e da cidade turca até Chios estão, neste momento, nas mãos de quem analisa o seu processo. E o futuro, tal como para quase todos no campo, é um grande ponto de interrogação. “Todo mundo aqui fala de ir para a Alemanha. Mas a Alemanha não é o paraíso. Na Alemanha também morrem…”. Então para onde gostava ele de ir? “Será que posso ir para Portugal? Falo português. Levo vida mulata. Não escolho sítio, em qualquer sítio quero ficar, vou fazer qualquer tipo de emprego, não tem importância. O fim do mundo está próximo, o melhor é rezar muito, fazer boa coisa. Era assim que falava uma senhora angolana que fugiu da guerra em Angola para a RDC na igreja do Luvo onde eu ia”.

No final da conversa peço a Zico para lhe tirar uma foto junto ao muro no porto de Chios e noto na ironia: um homem que fez da fronteira o seu ganha-pão a pousar junto de um graffiti que diz “no borders” à porta de um campo de refugiados.

Reparo ainda noutra coincidência: no que toca a fronteiras, a região onde fica a cidade do Luvo é mítica e esteve em cima da mesa durante a Conferência de Berlim em 1885. Antes da conferência, a circulação de pessoas e bens de um lado para o outro era feita de forma normal, sem controlo entre os povos do Congo e de Mbanza Congo (hoje Angola) que se visitavam e falavam a mesma língua – o kikongo – casavam-se e eram livres. Com a Conferência de Berlim o continente africano foi ocupado e retalhado em pedaços de acordo com os interesses europeus e vítima de erros graves nas organizações sociais e culturais dos territórios. A economia tradicional comunitária e de subsistência foi desmantelada com o objectivo de servir apenas as metrópoles. Tribos aliadas foram separadas e tribos inimigas obrigadas ao confronto, sementes foram lançadas para o nascimento de guerras civis. Hoje em dia, a maioria da população africana continua a ter de sofrer para conseguir sobreviver. Como Zico.

Música para Zico | Para que em Souda, e para onde quer que vá a seguir, nunca esqueça a língua portuguesa cheia de ginga que me fez matar saudades de Angola no meio de uma ilha perdida no mar Egeu.

Afroman, Anselmo Ralph, Bonga, Conjunto N’gonguenha, Buraka Som Sistema, DJ Kadu, Matias Damasio, MCK, Paulo Flores, Yuri da Cunha, António Variações, Batida, Dead Combo, Deolinda, Gaiteiros de Lisboa, Jorge Palma, Oquestrada, José Mário Branco, Orelha Negra, Sam The Kid, Sara Tavares, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Carlos Paredes e Fausto.

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