Diário de Chios #6

img_4516

Reem e a amiga, Randa, aproveitam o final de tarde para uma caminhada. O vento sossegou, o frio é tolerável, as gaivotas rondam os barcos dos pescadores, há uma luz bonita. Randa empurra o carrinho onde vai o filho de ano e meio e Reem (na foto), 25 anos, está grávida de 7 meses. As duas amigas conversam durante o passeio e podiam estar nas margens do Rio Eufrates em Deir-ez-Zor, a sua terra-natal na Síria, mas este passeio acontece no porto de Chios. É um dos raros momentos de normalidade que a vida num campo de refugiados pode proporcionar e que quase ofusca a triste realidade: estas duas amigas fugiram juntas da Síria e dos ataques do Estado Islâmico.

Reem era professora de História do ensino secundário, tinha uma vida normal e feliz até que, sem querer, tornou-se ela própria personagem da História mundial, e logo de um dos capítulos mais trágicos da nossa era. Reem é uma dos cerca de 4,8 milhões de refugiados sírios e uma das vítimas da guerra da Síria. Vive há três meses e meio numa tenda partilhada com a família da amiga no campo de Souda. Ambas estão na companhia dos maridos e têm família na Áustria e Alemanha, a quem esperam juntar-se o mais breve possível.

Como professora de História na Síria, Reem tinha um manacial imenso para explorar com os alunos em Deir ez-Zor. O seu país, situado numa zona geográfica entre Europa, Ásia e África, tem – teve? – um dos patrimónios históricos mais diversos do mundo, com várias localidades reconhecidas como património da humanidade pela UNESCO. No país de Reem surgiu a agricultura, a domesticação de animais, o nascimento das cidades, o surgimento do Estado, a criação do alfabeto. São – eram? – inúmeros os museus e as ruínas arqueológicas espalhadas por todo o país. Mas agora, em paralelo com a tragédia humanitária acontece também na Síria um cenário de devastação cultural e histórica: património das cidades e sítios arqueológicos bombardeados, destruídos intencionalmente, danificados, saqueados e vendidos no mercado negro.

Com a guerra, os manuais de História que Reem utilizava na sala de aula para ensinar os seus alunos terão de ser reescritos. E a próxima vez que estiver perante uma plateia de estudantes, Reem será não apenas uma professora mas também uma testemunha activa da História do seu país.
Daqui a dois meses – pergunto-me se será possível que, nessa altura, Reem ainda viva nas condições degradantes de Souda – quando a guerra na Síria assinalar os seis anos, está previsto o nascimento de Yossef, que nada ainda sabe do que a mãe passou para com ele chegar a Chios e à ilusão de um porto seguro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s