Diário de Chios #8

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É junto ao castelo de Chios que durante séculos albergou sucessivamente bizantinos, genoveses, otomanos, venezianos, turcos, e depois, gregos, onde vivem hoje as oitocentas pessoas do campo de Souda. Numa destas tardes quando saía do campo uma ambulância estava estacionada entre duas fileiras de tendas. Recolhia um jovem que acabara de tentar cometer suicídio. O tronco de uma árvore que perfurou os blocos de pedra do castelo de Chios foi o lugar escolhido, um cinto preto de calças a arma utilizada. Um dos habitantes do campo apercebeu-se do que estava a acontecer, correu para a árvore, cortou o cinto e salvou-lhe a vida. Depois de uma noite no hospital, M. passou uma outra noite na esquadra onde ninguém falou com ele e foi enviado no dia seguinte novamente para o campo. M. tem 16 anos, vem da Argélia e está sozinho.

Suicídios são frequentes entre refugiados, especialmente adolescentes e jovens adultos, afectados por uma mudança de vida que sentem não ser reversível. Existem poucos dados mas estima-se que haja um risco acentuado devido à exposição ao trauma, stress, problemas de saúde mental, consumo de estupefacientes. Estão no limbo e não conseguem lidar com sentimentos de solidão, injustiça, tristeza, falta de perspectiva, insegurança quanto ao futuro, condições de vida degradantes, medo. Dois dias depois desta tentativa em Souda, um refugiado do campo de Skaramangas, em Atenas, acabou mesmo por morrer em circunstâncias semelhantes. Os casos são abafados e as ONG no terreno comentam-nos em conversas ocasionais. Muitas das crianças e adolescentes em perigo não recebem ajuda porque as famílias não procuram os serviços de saúde mental e, no caso de M., essa questão nem se coloca porque viaja desacompanhado. A maioria dos menores desacompanhados foram retirados deste campo por falta de condições para os proteger, e recolocados em abrigos. O caso de M. tem um tratamento diferente. As autoridades competentes recusam-se a retirá-lo do campo com a justificação de que isso “daria ideias aos outros refugiados e poderia estimular tentativas de suicídio como forma de fuga do campo”. E por isso nada se faz.
M. nasceu em Batna, berço da revolução argelina contra o colonialismo francês e foi depois viver para Argel. No subúrbio de El Biar foi aprendiz de cabeleireiro e, mais tarde, já na Turquia viveu alguns meses de cortar o cabelo a refugiados. Em Souda o desespero tomou conta dele. Pergunta-me se conheço futebolistas argelinos, Slimani que jogou no Sporting, Brahimi que joga no Porto. A. tem 16 anos.
O castelo de Chios à beira Egeu plantado sobrevive durante séculos a vitórias e derrotas, luzes e sombras, sucessivos impérios e seus carrascos. Assim parece continuar.

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