Diário de Chios #10

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As primeiras vezes que vi Mustafa estava convencida de que ele trabalhava para alguma organização internacional, via-o a fotografar bastante no campo, a fazer videos, a ser um excelente comunicador, a falar inglês fluentemente, cheguei a pensar que integrava alguma comitiva oficial da União Europeia ou do ACNUR. Foi com surpresa que percebi que era também ele um refugiado.


Mustafa é sírio, chegou a Chios no final do Março de 2016, depois do Acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia e está, por isso, no campo de Souda há dez meses. Antes, vivia no centro de Alepo onde tinha o que diz ser “uma super vida” com a mulher e os filhos, emprego, casa, carro, filhos a estudar. Trabalhava na indústria farmacêutica e, além do salário base acima da média, facturava bastante em comissões. “Gostava muito do meu trabalho. E quando gostamos, fazemos bem feito”. Mustafa tinha o objetivo de fazer um milhão de liras por cada um dos seus quatro filhos. O sonho era que eles, se quisessem, pudessem ser os quatro médicos e trabalhassem gratuitamente sem precisar de se preocuparem com dinheiro. “Chamem-me louco mas era o meu sonho”.

De um dia para o outro tudo mudou. “Chegou a dita “revolução” enviada pela América e disseram-nos que nos iam dar liberdade. Liberdade de quem?”. Mustafa pergunta e justifica com os números oficiais: meio milhão de mortos, cinco milhões de refugiados fora do país, seis milhões deslocados internamente. “Um país destruído, que revolução é esta? Foi uma guerra suja da América. Sírios a matar sírios e depois mandam o ISIS para lutar. Assad podia ser ladrão mas na Síria tínhamos saúde e educação gratuitos. Na Europa também têm governos corruptos mas não começam guerras por isso. Eu perdi a minha família, perdi tudo”.
De um dia para outro chegou a casa e o pai, a mulher, os quatro filhos estavam mortos. Assim.
Mustafa viu-se perante duas hipóteses: suicidar-se ou tentar um recomeço. Escolheu a segunda. “Não sou estúpido, posso refazer a minha vida na Europa”.

Veio. Como refugiado, há dez meses a viver no campo em Souda, Mustafa sente-se agora mercadoria, uma peça num “jogo sujo”. “Na Turquia usam os refugiados para ganhar dinheiro. Erdogan diz à União Europeia: dêem-me dinheiro ou envio refugiados para a Europa. Por outro lado, a Europa dá dinheiro ao governo grego e às ONG para nos darem algumas condições mas vês como vivemos… Esse dinheiro chega aqui? Os refugiados viraram um negócio, é melhor do que o petróleo, melhor do que o gás. Mas quando dizes a verdade ganhas inimigos. No outro dia veio uma equipa da comunicação social, entrevistaram-me mas logo deram meia volta, a minha conversa não lhes interessa…”.

Neste momento Mustafa espera a resposta ao recurso que interpôs da recusa do pedido de asilo. Ser devolvido à Turquia está fora de questão. “A Turquia não é segura para os turcos quanto mais para os sírios. Falo mal do governo turco todos os dias. Vou para lá prendem-me e matam-me”. Se o asilo não lhe for concedido Mustafa tem um plano B desesperante. “Vou vender um rim. Coloquei um post na internet e alguém da Alemanha ofereceu 5.000 euros, respondi-lhe ‘deves pensar que por ser refugiado sou burro’. Sei que no mercado negro vale 20 mil euros”, diz. Mustafa sabe também que há um mercado negro para sair de Chios com passaporte falso. Mas custa muito dinheiro. Cinco mil dólares para chegar a um país da Europa, nove mil para ir para o Canadá.

Há uns meses decidiu usar o seu longo cabelo para ganhar dinheiro. Fez um vídeo para o YouTube a puxar um autocarro com o cabelo com o objectivo de entrar no Guiness. Também já pensou arranjar um cão como companheiro de tenda e talvez assim conseguir uma maior compaixão europeia para acelerar o seu processo. Mustafa sabe que narrativas como a sua são difíceis de ter lugar nos media ocidentais mas perante iniciativas como estas quem sabe não lhe dão uma oportunidade de entrar na Europa. Mustafa está há dez meses numa ilha grega perdida no meio do nada mas já nos topou a todos…

Mustafa. O “Viking” de Souda. O homem que perdeu tudo mas que escolheu a possibilidade de um recomeço. O homem que conduziu ele mesmo um barco entre mau tempo e ondas acima de um metro e chegou da costa da Turquia a Chios com mais 46 pessoas a bordo. O homem do leme da sua própria vida que de um dia para o outro virou um náufrago da guerra, da Europa, do mundo. O homem que, apesar de preso numa ilha, escolheu que ninguém será dono do seu pensamento ou da sua vida. O homem que entre a lucidez e a loucura vive dia após dia numa tentativa de se manter à superfície.

“A Europa está a criar monstros. Estão a matar estas pessoas que vivem nos campos de refugiados. Se as crianças vão para a escola, vão ser profissionais, vão ser médicos, professores. A viver aqui aprendem apenas a beber, a mentir para sobreviver, serão criminosos. Tenho 42 anos, o meu tempo está a passar. Quando posso recomeçar a minha vida como ser humano? Quando deixarei de ser um animal na fila para ter comida, para ter roupa? Quando chegará esse dia?”

No próximo dia 20 de Março assinala-se um ano do Acordo assinado entre a União Europeia e a Turquia que mantém reféns em Chios centenas de pessoas que, se tivessem chegado dias antes, já estariam longe daqui.

Foto de Mustafa tirada por Mahmud, sírio, 14 anos, durante o workshop de fotografia.

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