Ir ao Salar de Uyuni com uma criança?

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Faz esta semana um ano (já?!) que partimos na viagem de volta ao mundo. Por isso, fui à gaveta… Quando nos perguntam, por exemplo, qual o sítio desta viagem onde gostaríamos de voltar a resposta passa pelo Salar de Uyuni e a Reserva Eduardo Avaroa, na Bolívia. Aqui passámos três dias intensos a bordo de um jipe partilhado com desconhecidos. Não foi a etapa mais fácil mas foi provavelmente a melhor. Ora espreitem lá.

Ir à Bolívia e não ir ao Salar de Uyuni era impensável mas à medida que o nosso itinerário pelo país nos levava para Sul começou a crescer um certo nervoso miudinho. Estávamos na recta final da viagem e, com um ou outro percalço facilmente superado, estava tudo a correr bem. Será que valia mesmo a pena arriscar e sujeitar uma criança de três anos e meio a uma viagem que saberíamos ser agreste até para adultos?

As agências para as excursões não tinham sequer preço para cobrar a uma criança tão pequena e nos fóruns que encontrámos pela internet as opiniões eram dissuasoras. Horas a fio aos solavancos em estradas pedregosas, paragens para descanso curtas, travessia de ribeiros mesmo na estação seca, altitude elevada, temperaturas baixas, mal estar da montanha, pneus furados, cansaço, poeira. Enfim, não era o cenário mais indicado para levar a Mia a reboque mas…lá fomos.

E a nossa viagem não teria sido a mesma sem esta passagem pelo impressionante sul boliviano. Vulcões em erupção, montanhas cobertas de neve, fontes termais, geysers fumegantes, fumarolas, lagoas de várias cores (azuis, vermelhas, verdes), rochas esculpidas ao estilo de Dalí, flamingos cor-de-rosa, lamas, vicunhas e alpacas.

Aqui percebemos que não tínhamos apenas ido dar a volta ao mundo, tínhamos mesmo estado noutro mundo. Foi uma viagem para nunca mais esquecer na vida.

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img_1475-7-44-54-am-7-44-54-amUma bandeira portuguesa deixada por algum visitante anterior

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Viajámos de autocarro desde a maravilhosa cidade de Sucre até pequena localidade de Uyuni, porta de saída para as excursões ao salar. Na internet tinha lido cenários catastróficos sobre estas tours: acidentes rodoviários, viaturas em mau estado, condutores embriagados, turistas que sofreram acidentes muito graves. Por isso, andámos um pouco para trás e para a frente na Avenida Ferroviária a consultar várias operadoras, até nos decidirmos por uma. A oferta e os preços eram todos muito semelhantes: dois ou três dias num todo-o-terreno com condutor/cozinheiro, mantimentos e alojamento. O ponto principal era o jipe estar em boas condições e o motorista ser de confiança e decidimos por uma agência que nos pareceu garantir isto e até disse que ia fazer uma troca.

Saímos de madrugada com mais quatro desconhecidos franceses a bordo. A primeira paragem foi no Cemitério dos Comboios habitado apenas por fantasmas e esqueletos de metal, meros vestígios esquecidos no deserto do antigo passado industrial e mineiro do Salar. A linha de caminho de ferro, criada no século XIX, unia Uyuni ao porto de Antofagasta (actualmente pertence ao Chile), um ponto comercial estratégico para a exportação de minerais através do Oceano Pacífico. Anos mais tarde a Bolívia perdeu o controlo do porto e como o país não tem ligação ao mar (uma reivindicação que continua na ordem do dia) interrompeu-se a exploração.

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Entrando no salar a paisagem é inacreditável, surreal mas não há nada para ver. No maior deserto de sal do planeta não há mesmo rigorosamente nada para ver, nem mesmo o horizonte que se perde entre a planície e o céu levando-nos a sofrer de miragens consecutivas. Estamos a 3.700 metros de altitude – e ainda vamos subir mais. Como fomos no tempo seco o sal estala e o solo parece um tapete branco com desenhos geométricos. Os entendidos dizem que esta imensidão de brancura poderá ter tido origem num braço de mar do Pacífico que se terá depois transformado num enorme lago.

A “flutuar” nesse lago de sal está uma floresta de cactos gigantes: é a Isla del Pescado. Subimos os três ao topo da colina com a Mia a liderar a expedição.

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No segundo dia da visita seguimos para Sul até à Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa. Ainda é de noite quando acordamos. O plano era levar a Mia ainda a dormir para o carro mas ela acaba por acordar para adormecer pouco depois já vamos estrada fora, agora numa picada, rumo às lagoas: a Laguna Hedionda, verde e conhecida pelo aroma menos agradável, a Laguna Canapa e a Laguna Honda. Aqui vimos algumas das paisagens mais bonitas povoadas pelos fotogénicos flamingos.

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Pelo caminho somos vigiados ao longe pelos vulcões andinos: o fumegaste Ollague (5.870 metros) e o Uturuncu (acima dos 6.000 metros).

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img_1987-7-44-51-am-7-44-51-amÁrvore de Pedra, Deserto do Siloli

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img_2120-7-44-50-am-7-44-50-amVicunhas, “primas” dos lamas

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Apesar do clima inóspito também há flora como a yareta. Parece uma rocha coberta por musgo mas é um tipo de planta com milhares de anos que cresce nos Andes em altitudes entre 3.200 e 4.500 metros. São autênticas sobreviventes pois vingam neste meio ambiente onde o vento sopra sem parar e o frio parece cortar até as pedras. A yareta queima facilmente e era (ainda é, em alguns casos) utilizada como combustível. Tem a particularidade de crescer muito lentamente o que contribui para que seja uma espécie ameaçada de extinção. Quando nos apresentaram às yaretas, na Bolívia, foi impossível não recordar a welwitschia mirabilis, também um género de planta, conhecida como “polvo do deserto”, que é capaz de sobreviver em condições igualmente inóspitas de temperaturas extremas no Deserto do Namibe, em Angola, e também corre o perigo de desaparecer da face da Terra.

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Ao final da tarde chegámos à Laguna Colorada, de tons avermelhados, por causa dos microrganismos que ali habitam. A direcção e intensidade do vento bem como a incidência da luz solar ditam a coloração. Deixámos as mochilas na pensão, uma camarata que dividimos com os nossos companheiros de viagem, e saímos ao encontro de um grupo de lamas. O vento começa a soprar com força e está um frio de cortar. Ensaiamos um passeio até à lagoa. Eu escolho o caminho mais curto até à margem da lagoa e volto para casa mas o Francisco e a Mia são mais bravos e foram até ao miradouro.

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O ponto mais a sul a que chegámos nesta visita, a 400 quilómetros de Uyuni, foi a Laguna Verde, no sopé do vulcão Licáncabur. Ali, do outro lado é o Chile o deserto de São Pedro de Atacama. Ficámos à espera – sem grande sorte – que o vento soprasse noutra direcção para observar as águas mudarem de cor para um verde jade mais luminoso.

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Perante os 5.800 metros do Licancábur jurámos solenemente que um dia “volveremos” e atravessaremos até ao Chile. Parámos ainda nas piscinas de água quente do Sol de Mañana, um campo de géisers e lamas ferventes, onde a Mia acabou por fazer uma birra porque era a única de nós os três que queria mergulhar…E nós sem grandes argumentos…

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Por vezes tenho de fazer como a Mia (foi tão brava e paciente esta miúda) nesta foto, fechar os olhos, respirar fundo e pensar: é mesmo verdade? Estivemos mesmo aqui?

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14361409_10153722869501875_8600105863673148155_oNo Deserto de Dalí

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Obrigada, Bolívia! Estavas à nossa espera e foi o melhor dos encontros…Voltaremos!

Nota: O Salar de Uyuni e a Reserva Eduardo Avaroa são cada vez mais procurados por turistas – o rasto dos pneus a cortar o tapete branco são disso evidência. Compreende-se perfeitamente mas há consequências, por isso, é importante ter uma atitude consciente e ambientalmente sustentável. Ao nosso alcance está: não deixar lixo e escolher agências que demonstrem essa preocupação.

6 pensamentos sobre “Ir ao Salar de Uyuni com uma criança?

  1. Obrigada pela partilha… fotos lindas… dá vontade de partir já 🙂

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  2. Olá viajantes! 🙂 Só recentemente descobri o vosso blog pelo site do Público mas estou rendida!!! Adoro tudo, tudo, todas as viagens, os textos, as fotos, as iniciativas solidárias.toca bem fundo. Parabéns por aquilo que fazem. Agora vi este post e a coincidência é enorme pois estou a planear as férias na América do Sul este verão e agora quero ir à Bolívia 😀 Ah Ah Ah Tenho um filho com 6 anos e outro com 10. E queria pedir ajuda aqui numas dúvidas? Como posso fazer? 🙂 Tudo de bom para vocês

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