Eles têm o mundo nas mãos

IMG_20180305_202847_790

Esta bola do mundo já deu mesmo a volta ao mundo e, por causa das voltas que o mundo dá, veio girar até à Fundação Gulbenkian. É ela que me ajuda a dar o mote e, depois:

“Joana, mas por que há guerras?”

“Mas se já está tudo destruído por que continua a guerra da Síria? Já não há mais nada para destruir, não é?”

“Por que há refugiados e migrantes?”

Eles têm 7, 8, 9 anos de idade. Têm as perguntas mais pertinentes, as respostas mais certeiras, os sentimentos mais puros, os desejos bonitos para as crianças que eu conheci nos campos de refugiados em Chios, na Grécia, e lhes apresento, aqui e agora, através de fotografias e vídeos.

As perguntas surgem em catadupa. Simples, honestas, curiosas, genuínas, inteligentes, desafiantes. Geralmente fico por milésimos de segundo a tremer, a pensar como vou responder a estas questões que os adultos fazem desde que o mundo é mundo sem as conseguir erradicar. Como explicar a crianças isto da guerra da Síria, os horrores que elas vêem na televisão, os barcos, os naufrágios, os refugiados. Já aprendi um truque infalível: devolvo a pergunta à plateia. Curiosamente, a resposta às perguntas mais difíceis vem sempre da plateia, porque há sempre outra criança que me salva (obrigada! obrigada!) e responde por mim. Da forma mais simples e correcta.

Respondem eles:

“Por que há guerras? Olha, há guerras porque há países que julgam que são melhores do que outros”

“Há guerra porque uns querem ser mais ricos do que os outros”

“Não param de destruir o país porque depois vão querer construir o que destruíram!”

“Há migrantes e refugiados porque as pessoas vão para outros países à procura de coisas que não têm nos seus países. Como comida, casa, trabalho, Paz…”

E, num conjunto de grupos de 20 crianças, a grande maioria tem familiares e amigos a viver noutros países, ou que nasceram noutro país. À minha frente estão os frutos deste novo mundo: mundo de migrantes, mundo global, intercultural, interligado. Não há – na minha opinião – tema mais actual e mais importante do que este, das migrações, dos cruzamentos, do diálogo intercultural. É imprescindível para uma educação para a Paz, para a cidadania, para a justiça, para a empatia, para o Futuro.

Desde que fui voluntária nos campos de refugiados na Grécia tenho participado em variadas sessões sobre migrações, refugiados e a guerra na Síria. Comecei por falar perante plateias de adultos mas cedo percebi que nessas conversas das duas uma: ou tenho perante mim pessoas com uma postura esclarecida e de concordância e é uma espécie de “pregar aos convertidos”; ou tenho perante mim adultos com uma atitude negativa cheia de ideias já bem vincadas e extrema relutância em mudar.

O que fazer então? Como conseguir partilhar estas vivências e ter um alcance mais relevante e duradouro?

IMG_20180305_141209_117

O desafio para ter estes debates em escolas mostrou-me um outro caminho. Os adolescentes e pré-adolescentes não têm filtros nem pudores em fazer perguntas incómodas. E, ao mesmo tempo, que já guardam em si vários mitos e replicam preconceitos que ouvem por aí, demonstram também uma abertura genuína quando a abordagem lhes cativa. Comecei a sentir um entusiasmo crescente nessas conversas e sinto sempre um nervoso imenso e inédito a pensar nestas sessões que são sempre diferentes e imprevisíveis. É uma responsabilidade gigante falar para mentes em formação.

O desafio na Gulbenkian foi ainda mais além no grau de dificuldade: falar sobre estes temas delicados com crianças do primeiro ciclo. Seria possível, aconselhável? Fica clara a importância destas conversas quando os miúdos me contam que já viram na televisão barcos cheios de pessoas a afundar e crianças com feridas na cara por causa de bombas que rebentaram em casa, nas ruas, na escola, no hospital… E quando me dizem que a conversa que estamos a ter “é boa” porque lhes permite “desabafar”. Ignorar não é mesmo solução.

Começo a conversa com aquilo que acredito ser o melhor ponto de partida: o mundo. Mostro-lhes o globo. Falamos sobre as peças de arte do Museu vindos de países tão diferentes – Síria, Turquia, Irão, China, França – e coleccionadas por alguém – “o Sr. Gulbenkian” – que também migrou e cuja família foi perseguida por vir de um país chamado Arménia. Juntos, chegamos à conclusão que as pessoas migram, os animais migram, até os objectos e as ideias migram. O mundo é mundo porque se move, feito de um movimento perpétuo.

Depois vemos as fotos e os vídeos que fiz nos campos de refugiados da Grécia com crianças como eles. Apresento-lhes o Ahmed, a Selina, a Noor. As crianças da Síria, do Iraque e do Afeganistão que conheci em Chios. Faço-me de ponte entre eles. Eles aceitam a travessia e por momentos estão todos juntos na mesma sala.

“Também gostam de saltar à corda e fazer macacadas como nós”

“Falavas com eles em que língua? Usavas o Google Translator?”

“Estiveste mesmo ali? Foste tu que tiraste essas fotos? É mesmo a tua voz nesse vídeo?”

Durante a conversa procuro não dramatizar, não lhes quero nunca provocar medo ou desconforto, não quero impor ideias, não quero (mesmo!) “colonizar” o pensamento deles com as minhas convicções. Por outro lado, também não quero banalizar as tragédias ou reforçar a ideia da inevitabilidade da guerra, das injustiças e das desigualdades – não são inevitáveis, não são, não podem ser.

Quero somente partilhar coisas que vi e vivi, ajudar a esclarecer algumas coisas que eles viram na televisão ou ouvem em casa e na escola, abrir linhas de pensamento, iniciar um diálogo.

“Imaginem agora: e se estes meninos da Síria agora viessem morar para Portugal, para a vossa cidade e estudar na vossa escola? Gostavam? Como é que os recebiam?”. Criar pontes.

“Joana, aí no globo: onde é a Síria?”

“Onde é Portugal?” “Ah…Não ficamos assim tão longe”

“Onde é a Grécia?”

“Onde é Angola?”

“Onde é a Suíça?”

“Onde é o Oceano Pacífico?”

“Onde é…?”

Não me canso nunca de lhes satisfazer a curiosidade geográfica, apontar os países, o norte e o sul, os oceanos na bola insuflável e de girar o mundo com eles. E termino sempre feliz – nó na garganta e a transbordar de emoção – quando olho para eles e vejo que… sim, o caminho pode ser mesmo por aqui: Eles Têm o Mundo nas Mãos.

IMG_20180305_202732_422

IMG_20180305_203016_523

IMG_20180305_202806_430

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s