Diário de Chios #9

expo

A culpa foi toda do Mahmud. Sempre que me via com a máquina fotográfica no campo pedia-me para fotografar. Eu ia deixando, um bocadinho aqui, um bocadinho ali e, às tantas, já ele desaparecia pelo campo adentro à procura do melhor clique. À noite, quando eu chegava a casa olhava as fotografias dele e reparava em coisas que me escapavam durante o dia, via o campo pelos olhos do Mahmud: certos sorrisos, certos olhares, outros espaços do campo, pormenores do dia-a-dia, uma espontaneidade difícil de capturar por quem chega de fora e está de passagem. Perante o entusiasmo dele propus fazer uma espécie de mini-workshop com algumas das crianças mais crescidas. Sem grandes linhas orientadoras seria apenas um olhar sobre a vida num campo de refugiados segundo os próprios. As suas vozes traduzidas em imagens, uma forma de expressão em que eu não precisava de falar árabe ou curdo nem eles inglês para nos entendermos. Numa loja de fotografia da cidade pedi para imprimir as melhores. Hoje foi o dia da exposição à entrada do campo, uma galeria de arte ao ar livre. Bem sucedida e com muita procura: as fotos desapareceram quase todas.

Diário de Chios #8

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É junto ao castelo de Chios que durante séculos albergou sucessivamente bizantinos, genoveses, otomanos, venezianos, turcos, e depois, gregos, onde vivem hoje as oitocentas pessoas do campo de Souda. Numa destas tardes quando saía do campo uma ambulância estava estacionada entre duas fileiras de tendas. Recolhia um jovem que acabara de tentar cometer suicídio. O tronco de uma árvore que perfurou os blocos de pedra do castelo de Chios foi o lugar escolhido, um cinto preto de calças a arma utilizada. Um dos habitantes do campo apercebeu-se do que estava a acontecer, correu para a árvore, cortou o cinto e salvou-lhe a vida. Depois de uma noite no hospital, M. passou uma outra noite na esquadra onde ninguém falou com ele e foi enviado no dia seguinte novamente para o campo. M. tem 16 anos, vem da Argélia e está sozinho.

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Diário de Chios #6

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Reem e a amiga, Randa, aproveitam o final de tarde para uma caminhada. O vento sossegou, o frio é tolerável, as gaivotas rondam os barcos dos pescadores, há uma luz bonita. Randa empurra o carrinho onde vai o filho de ano e meio e Reem (na foto), 25 anos, está grávida de 7 meses. As duas amigas conversam durante o passeio e podiam estar nas margens do Rio Eufrates em Deir-ez-Zor, a sua terra-natal na Síria, mas este passeio acontece no porto de Chios. É um dos raros momentos de normalidade que a vida num campo de refugiados pode proporcionar e que quase ofusca a triste realidade: estas duas amigas fugiram juntas da Síria e dos ataques do Estado Islâmico.

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Diário de Chios #5

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“Não tem maka”, disse-me Zico, 25 anos, quando pedi para o entrevistar. Não tem maka. Fui reencontrar a expressão angolana no campo de Souda. Quais as probabilidades disto acontecer? Todas. Chios é uma Torre de Babel onde se falam todas as línguas. E foi sem maka, ou seja, sem qualquer problema, que fiquei a saber que Zico nasceu em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

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Diário de Chios #4

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No jornalismo há algo a que se chama o critério de proximidade. É um critério utilizado na escolha de publicação de notícias. Que valor tem determinada notícia? Qual o interesse que determinada notícia poderá ter para o público? O critério da proximidade dá uma resposta possível e parte da premissa que assuntos próximos ao leitor geram maior interesse do que factos acontecidos a quilómetros de distância. A prática confirma-se: para a imprensa ocidental 100 mortos em Beirute valem bem menos do que 10 mortos em Paris. E depois, além da geografia física há a geografia emocional e, aparentemente, ‘empatizamos’ mais com uma realidade com a qual nos podemos identificar. E na Europa é, convenhamos, difícil sentir empatia com os refugiados. O pensamento comum é de que são pessoas cuja realidade não é a mesma da nossa em termos de conforto, educação, condições económicas e sociais. Tendemos a pensar que fogem de vidas miseráveis e que, por isso, são mais fortes e resistentes nas condições cruéis de um campo sem água, luz e com senhas de refeição racionadas. Geralmente não pensamos nos refugiados como alguém que já teve um bom emprego, frequentou a universidade, levava os filhos à escola, tinha acesso a hospitais, frequentava bares e restaurantes. É senso comum. Por isso gostava de vos contar como de todas as vezes que converso com Yosra sinto-me a olhar ao espelho. Sinto que o critério da proximidade toma-me de assalto. Eu podia ser esta mulher. Esta mulher podia ser qualquer uma de vocês que está a ler este texto.

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Diário de Chios #3

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Quero apresentar-vos a Rihanah, o Zafar, a Selina e o Mahadi. Vivem na tenda nº8 do campo de refugiados de Souda. Foi aqui que me contaram a sua história de vida, o percurso que os trouxe do Afeganistão até Chios, até esta tenda onde, apesar de refugiados, me ofereceram um chá e amendoim torrado. O filho mais pequeno, 1 ano, está a dormir. Tem uma respiração ofegante por causa da gripe e febre. Selina, 5 anos, aninha-se ao meu lado, pousa a cabeça no meu colo, sinto-lhe o cabelo macio como o da Mia. Ficamos juntas durante todo o tempo enquanto os pais falam comigo, enquanto os pais falam connosco.

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