Diário de Chios #2

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Foi na fila para a distribuição da comida que vi a E., mulher esguia com uma barriga cheia e redonda. A minha função, na fila das mulheres, era verificar quantas refeições estão inscritas em cada cartão e passar a informação ao colega ao balcão. Geralmente há cinco, quatro, seis, oito pessoas por cartão, as famílias tendem a ser grandes. Quando olhei para o cartão da E. estranhei ver apenas o número “1”. Meti conversa.

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Diário de Chios #1

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Estava sentada entre legos e puzzles quando A. puxou-me pelo braço e pediu: “Vem!”. Segui-o, descendo as rochas do porto até à água. Ele começou à procura de pedras para atirar ao mar. Cada pedra que lançava com força nas águas calmas atingia a velocidade perfeita, rodava no ar, batia na água e saltava antes de mergulhar para sempre. “You!”, disse-me então entregando uma pedra. Eu bem tentei, uma, duas, três vezes perante o seu desconsolo: “No!No!No!”. Expliquei-lhe várias vezes que não tinha jeito para aquilo, que era um caso perdido, aerodinâmica não era comigo mas A. insistia na procura dos seixos redondos e achatados que ia encontrando para mim. À minha revelia começou ali um campeonato mas os seus discos voadores de navegação bem orientada contrastavam com os “plofs” desanimadores que os meus arremessos provocavam. Aproximou-se, então, de mim junto à água, mostrou-me como segurava na pedra, como dobrava as pernas e inclinava o tronco. “Ok. Vamos lá, então”, disse. Puxei o braço atrás e atirei com toda a força a pedra que, ao invés de mergulhar a pique como as outras, tocou com a parte de trás na água usando-a como rampa de lançamento para um voo em direcção ao horizonte num salto longínquo e perfeito. A. levantou os braços para cima, deu um grito sonoro de alegria, correu para mim e abraçou-me. Repeti a proeza várias vezes.
Podia começar por falar do campo de refugiados de Souda onde centenas de pessoas vivem em tendas sem electricidade e água quente, obrigadas a estar na fila com cartões na mão para receber refeições. Podia começar por falar que há aqui grávidas, bebés, crianças pequenas, idosos doentes, adultos com feridas. Podia começar por falar que há, na cidade, hotéis desocupados mas onde ninguém os alberga. Podia começar por falar que há apenas duas pessoas a entrevistar quase duas mil pessoas para avaliação dos pedidos de asilo. Há já tanta coisa que quero contar mas, por agora, gostava apenas de partilhar que no meu primeiro dia em Chios um menino sírio ensinou-me como fazer pedras saltar no Mar Egeu.

City Plaza Hotel: a solidariedade tem uma morada

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Cristian é chefe de cozinha e interrompeu a sua vida profissional para ajudar os refugiados. Desde Abril de 2016 o seu posto de trabalho é a cozinha industrial do City Plaza Hotel, um hotel no centro de Atenas que foi construído para os Jogos Olímpicos de 2004 mas esteve abandonado durante sete anos. Nessa altura, um grupo de activistas gregos ocupou-o e resolveu fazer deste lugar uma casa para 400 refugiados, metade dos quais crianças.

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Marcha Civil por Alepo: 1 semana

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“Tivemos uma primeira semana muito difícil e exigente na Marcha Civil por Alepo, que partiu de Berlim no passado dia 26 de Dezembro. A noite anterior iria ser igualmente exigente: estava prevista uma noite muito fria e estávamos mentalmente preparados para dormir no exterior, a primeira vez desde que começámos a caminhada. Ao mesmo tempo preparávamo-nos para uma manifestação nazi que iria acontecer por causa da nossa chegada (não era a primeira vez, infelizmente). Estávamos ansiosos, cansados e um pouco assustados.

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Já contaste à Mia?/ Have you told Mia? A guerra contada a uma criança

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“Já contaste à Mia?”, perguntaram-me jornalistas e amigos. A pergunta já rondava na minha cabeça. Vou viajar duas vezes num espaço curto de tempo – para o arranque em Berlim da marcha civil por Alepo e como voluntária para trabalhar num campo de refugiados na Grécia – e andava desconfortável com a ideia de ir embora sem explicar à Mia as razões destas viagens. Mas como falar da Síria, da marcha civil por Alepo e de campos de refugiados a uma criança?

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Pode a tecnologia ajudar a “salvar” o mundo?

greece-refugee-tech-3004Foto: CNET

Que impacto poderá ter a tecnologia nas causas sociais? A tecnologia tem muita força, já sabemos, mas… e se estiver humanizada, consciente e comprometida com os problemas que afectam o mundo? No Web Summit, considerado um dos maiores eventos de tecnologia e inovação do mundo, um dos temas que mais me interessou foi quando se falou de empresas de tecnologia que colocaram o seu know how ao serviço dos refugiados. Explico porquê.

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