Diário de Chios #13

dia do pai

Dia do Pai

Aos pais-coragem, pais-heróis, pais que se viram do avesso e fazem das tripas coração. Pais que salvam os filhos. Que lhes salvam a vida e a infância. Pais que vão até ao fim do mundo. Pais que suportam o inimaginável. Pais que choram por dentro e sorriem por fora. Pais que ajudam a preservar na memória dos filhos um lugar chamado infância. Pais que abraçam, pais que cuidam, que dão colo e cavalitas, que guiam, que dizem que vai passar. Pais que lutam, que acreditam, que não desistem. Pelos filhos.
Feliz Dia do Pai aos mais admiráveis que eu conheço.

Fotos: Chios, Grécia 2017

Diário de Chios #12

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– Vais embora? E quando voltas?, perguntaram-me na despedida de Chios.
A todos disse o mesmo:
– Espero voltar mas não vos quero ver aqui… Espero que já estejam longe, num lugar bonito e seguro.

E subi ao avião que me trouxe de volta ao meu lugar seguro. Chios ficou a ser só um pontinho minúsculo no meio do Egeu até que desapareceu da minha vista. Para a Europa, para as instituições europeias, para as organizações humanitárias, para as nações unidas, para os governos nacionais, Chios é também apenas um pontinho no mar Egeu. Longe da vista. Não conhecem a Yosra, o Mustafa, o Sahin, a Selina, o Meyer, o Mohammed, o Zico, a Reem grávida do Yosef, a E. grávida de 8 meses (e que nunca fez uma única ecografia), o Haider, a Ibtesam, a Noor, a Zahara, o Mahmud, o Adel, a Randa, o Zafar, a Rihanah…e as quase 2.000 crianças, mulheres e homens vindos de partes do mundo que estão a arder.

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Diário de Chios #11

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Tina. É uma das funcionárias da câmara municipal de Chios e trabalha na limpeza do campo de Souda. A gestão do campo é partilhada entre o município e o Conselho Norueguês para os Refugiados. A repartição das funções não é muito clara em vários domínios mas isso é só um pormenor. Chios é uma ilha grega que, tal como muitas outras, vivia do turismo. Com a crise dos refugiados os turistas deixaram de vir e há na ilha um clima de animosidade em relação aos migrantes. Em Novembro chegou mesmo a haver um ataque ao campo por grupos de extrema-direita.

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Diário de Chios #10

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As primeiras vezes que vi Mustafa estava convencida de que ele trabalhava para alguma organização internacional, via-o a fotografar bastante no campo, a fazer videos, a ser um excelente comunicador, a falar inglês fluentemente, cheguei a pensar que integrava alguma comitiva oficial da União Europeia ou do ACNUR. Foi com surpresa que percebi que era também ele um refugiado.

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Diário de Chios #9

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A culpa foi toda do Mahmud. Sempre que me via com a máquina fotográfica no campo pedia-me para fotografar. Eu ia deixando, um bocadinho aqui, um bocadinho ali e, às tantas, já ele desaparecia pelo campo adentro à procura do melhor clique. À noite, quando eu chegava a casa olhava as fotografias dele e reparava em coisas que me escapavam durante o dia, via o campo pelos olhos do Mahmud: certos sorrisos, certos olhares, outros espaços do campo, pormenores do dia-a-dia, uma espontaneidade difícil de capturar por quem chega de fora e está de passagem. Perante o entusiasmo dele propus fazer uma espécie de mini-workshop com algumas das crianças mais crescidas. Sem grandes linhas orientadoras seria apenas um olhar sobre a vida num campo de refugiados segundo os próprios. As suas vozes traduzidas em imagens, uma forma de expressão em que eu não precisava de falar árabe ou curdo nem eles inglês para nos entendermos. Numa loja de fotografia da cidade pedi para imprimir as melhores. Hoje foi o dia da exposição à entrada do campo, uma galeria de arte ao ar livre. Bem sucedida e com muita procura: as fotos desapareceram quase todas.

Diário de Chios #8

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É junto ao castelo de Chios que durante séculos albergou sucessivamente bizantinos, genoveses, otomanos, venezianos, turcos, e depois, gregos, onde vivem hoje as oitocentas pessoas do campo de Souda. Numa destas tardes quando saía do campo uma ambulância estava estacionada entre duas fileiras de tendas. Recolhia um jovem que acabara de tentar cometer suicídio. O tronco de uma árvore que perfurou os blocos de pedra do castelo de Chios foi o lugar escolhido, um cinto preto de calças a arma utilizada. Um dos habitantes do campo apercebeu-se do que estava a acontecer, correu para a árvore, cortou o cinto e salvou-lhe a vida. Depois de uma noite no hospital, M. passou uma outra noite na esquadra onde ninguém falou com ele e foi enviado no dia seguinte novamente para o campo. M. tem 16 anos, vem da Argélia e está sozinho.

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Diário de Chios #6

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Reem e a amiga, Randa, aproveitam o final de tarde para uma caminhada. O vento sossegou, o frio é tolerável, as gaivotas rondam os barcos dos pescadores, há uma luz bonita. Randa empurra o carrinho onde vai o filho de ano e meio e Reem (na foto), 25 anos, está grávida de 7 meses. As duas amigas conversam durante o passeio e podiam estar nas margens do Rio Eufrates em Deir-ez-Zor, a sua terra-natal na Síria, mas este passeio acontece no porto de Chios. É um dos raros momentos de normalidade que a vida num campo de refugiados pode proporcionar e que quase ofusca a triste realidade: estas duas amigas fugiram juntas da Síria e dos ataques do Estado Islâmico.

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Diário de Chios #5

zico

“Não tem maka”, disse-me Zico, 25 anos, quando pedi para o entrevistar. Não tem maka. Fui reencontrar a expressão angolana no campo de Souda. Quais as probabilidades disto acontecer? Todas. Chios é uma Torre de Babel onde se falam todas as línguas. E foi sem maka, ou seja, sem qualquer problema, que fiquei a saber que Zico nasceu em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

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Diário de Chios #4

yosra

No jornalismo há algo a que se chama o critério de proximidade. É um critério utilizado na escolha de publicação de notícias. Que valor tem determinada notícia? Qual o interesse que determinada notícia poderá ter para o público? O critério da proximidade dá uma resposta possível e parte da premissa que assuntos próximos ao leitor geram maior interesse do que factos acontecidos a quilómetros de distância. A prática confirma-se: para a imprensa ocidental 100 mortos em Beirute valem bem menos do que 10 mortos em Paris. E depois, além da geografia física há a geografia emocional e, aparentemente, ‘empatizamos’ mais com uma realidade com a qual nos podemos identificar. E na Europa é, convenhamos, difícil sentir empatia com os refugiados. O pensamento comum é de que são pessoas cuja realidade não é a mesma da nossa em termos de conforto, educação, condições económicas e sociais. Tendemos a pensar que fogem de vidas miseráveis e que, por isso, são mais fortes e resistentes nas condições cruéis de um campo sem água, luz e com senhas de refeição racionadas. Geralmente não pensamos nos refugiados como alguém que já teve um bom emprego, frequentou a universidade, levava os filhos à escola, tinha acesso a hospitais, frequentava bares e restaurantes. É senso comum. Por isso gostava de vos contar como de todas as vezes que converso com Yosra sinto-me a olhar ao espelho. Sinto que o critério da proximidade toma-me de assalto. Eu podia ser esta mulher. Esta mulher podia ser qualquer uma de vocês que está a ler este texto.

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