Diário de Chios #6

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Reem e a amiga, Randa, aproveitam o final de tarde para uma caminhada. O vento sossegou, o frio é tolerável, as gaivotas rondam os barcos dos pescadores, há uma luz bonita. Randa empurra o carrinho onde vai o filho de ano e meio e Reem (na foto), 25 anos, está grávida de 7 meses. As duas amigas conversam durante o passeio e podiam estar nas margens do Rio Eufrates em Deir-ez-Zor, a sua terra-natal na Síria, mas este passeio acontece no porto de Chios. É um dos raros momentos de normalidade que a vida num campo de refugiados pode proporcionar e que quase ofusca a triste realidade: estas duas amigas fugiram juntas da Síria e dos ataques do Estado Islâmico.

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Diário de Chios #5

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“Não tem maka”, disse-me Zico, 25 anos, quando pedi para o entrevistar. Não tem maka. Fui reencontrar a expressão angolana no campo de Souda. Quais as probabilidades disto acontecer? Todas. Chios é uma Torre de Babel onde se falam todas as línguas. E foi sem maka, ou seja, sem qualquer problema, que fiquei a saber que Zico nasceu em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

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Diário de Chios #4

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No jornalismo há algo a que se chama o critério de proximidade. É um critério utilizado na escolha de publicação de notícias. Que valor tem determinada notícia? Qual o interesse que determinada notícia poderá ter para o público? O critério da proximidade dá uma resposta possível e parte da premissa que assuntos próximos ao leitor geram maior interesse do que factos acontecidos a quilómetros de distância. A prática confirma-se: para a imprensa ocidental 100 mortos em Beirute valem bem menos do que 10 mortos em Paris. E depois, além da geografia física há a geografia emocional e, aparentemente, ‘empatizamos’ mais com uma realidade com a qual nos podemos identificar. E na Europa é, convenhamos, difícil sentir empatia com os refugiados. O pensamento comum é de que são pessoas cuja realidade não é a mesma da nossa em termos de conforto, educação, condições económicas e sociais. Tendemos a pensar que fogem de vidas miseráveis e que, por isso, são mais fortes e resistentes nas condições cruéis de um campo sem água, luz e com senhas de refeição racionadas. Geralmente não pensamos nos refugiados como alguém que já teve um bom emprego, frequentou a universidade, levava os filhos à escola, tinha acesso a hospitais, frequentava bares e restaurantes. É senso comum. Por isso gostava de vos contar como de todas as vezes que converso com Yosra sinto-me a olhar ao espelho. Sinto que o critério da proximidade toma-me de assalto. Eu podia ser esta mulher. Esta mulher podia ser qualquer uma de vocês que está a ler este texto.

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Diário de Chios #3

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Quero apresentar-vos a Rihanah, o Zafar, a Selina e o Mahadi. Vivem na tenda nº8 do campo de refugiados de Souda. Foi aqui que me contaram a sua história de vida, o percurso que os trouxe do Afeganistão até Chios, até esta tenda onde, apesar de refugiados, me ofereceram um chá e amendoim torrado. O filho mais pequeno, 1 ano, está a dormir. Tem uma respiração ofegante por causa da gripe e febre. Selina, 5 anos, aninha-se ao meu lado, pousa a cabeça no meu colo, sinto-lhe o cabelo macio como o da Mia. Ficamos juntas durante todo o tempo enquanto os pais falam comigo, enquanto os pais falam connosco.

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Diário de Chios #2

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Foi na fila para a distribuição da comida que vi a E., mulher esguia com uma barriga cheia e redonda. A minha função, na fila das mulheres, era verificar quantas refeições estão inscritas em cada cartão e passar a informação ao colega ao balcão. Geralmente há cinco, quatro, seis, oito pessoas por cartão, as famílias tendem a ser grandes. Quando olhei para o cartão da E. estranhei ver apenas o número “1”. Meti conversa.

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Diário de Chios #1

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Estava sentada entre legos e puzzles quando A. puxou-me pelo braço e pediu: “Vem!”. Segui-o, descendo as rochas do porto até à água. Ele começou à procura de pedras para atirar ao mar. Cada pedra que lançava com força nas águas calmas atingia a velocidade perfeita, rodava no ar, batia na água e saltava antes de mergulhar para sempre. “You!”, disse-me então entregando uma pedra. Eu bem tentei, uma, duas, três vezes perante o seu desconsolo: “No!No!No!”. Expliquei-lhe várias vezes que não tinha jeito para aquilo, que era um caso perdido, aerodinâmica não era comigo mas A. insistia na procura dos seixos redondos e achatados que ia encontrando para mim. À minha revelia começou ali um campeonato mas os seus discos voadores de navegação bem orientada contrastavam com os “plofs” desanimadores que os meus arremessos provocavam. Aproximou-se, então, de mim junto à água, mostrou-me como segurava na pedra, como dobrava as pernas e inclinava o tronco. “Ok. Vamos lá, então”, disse. Puxei o braço atrás e atirei com toda a força a pedra que, ao invés de mergulhar a pique como as outras, tocou com a parte de trás na água usando-a como rampa de lançamento para um voo em direcção ao horizonte num salto longínquo e perfeito. A. levantou os braços para cima, deu um grito sonoro de alegria, correu para mim e abraçou-me. Repeti a proeza várias vezes.
Podia começar por falar do campo de refugiados de Souda onde centenas de pessoas vivem em tendas sem electricidade e água quente, obrigadas a estar na fila com cartões na mão para receber refeições. Podia começar por falar que há aqui grávidas, bebés, crianças pequenas, idosos doentes, adultos com feridas. Podia começar por falar que há, na cidade, hotéis desocupados mas onde ninguém os alberga. Podia começar por falar que há apenas duas pessoas a entrevistar quase duas mil pessoas para avaliação dos pedidos de asilo. Há já tanta coisa que quero contar mas, por agora, gostava apenas de partilhar que no meu primeiro dia em Chios um menino sírio ensinou-me como fazer pedras saltar no Mar Egeu.