Eles têm o mundo nas mãos

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Esta bola do mundo já deu mesmo a volta ao mundo e, por causa das voltas que o mundo dá, veio girar até à Fundação Gulbenkian. É ela que me ajuda a dar o mote e, depois:

“Joana, mas por que há guerras?”

“Mas se já está tudo destruído por que continua a guerra da Síria? Já não há mais nada para destruir, não é?”

“Por que há refugiados e migrantes?”

Eles têm 7, 8, 9 anos de idade. Têm as perguntas mais pertinentes, as respostas mais certeiras, os sentimentos mais puros, os desejos bonitos para as crianças que eu conheci nos campos de refugiados em Chios, na Grécia, e lhes apresento, aqui e agora, através de fotografias e vídeos.

As perguntas surgem em catadupa. Simples, honestas, curiosas, genuínas, inteligentes, desafiantes. Geralmente fico por milésimos de segundo a tremer, a pensar como vou responder a estas questões que os adultos fazem desde que o mundo é mundo sem as conseguir erradicar. Como explicar a crianças isto da guerra da Síria, os horrores que elas vêem na televisão, os barcos, os naufrágios, os refugiados. Já aprendi um truque infalível: devolvo a pergunta à plateia. Curiosamente, a resposta às perguntas mais difíceis vem sempre da plateia, porque há sempre outra criança que me salva (obrigada! obrigada!) e responde por mim. Da forma mais simples e correcta.

Respondem eles:

“Por que há guerras? Olha, há guerras porque há países que julgam que são melhores do que outros”

“Há guerra porque uns querem ser mais ricos do que os outros”

“Não param de destruir o país porque depois vão querer construir o que destruíram!”

“Há migrantes e refugiados porque as pessoas vão para outros países à procura de coisas que não têm nos seus países. Como comida, casa, trabalho, Paz…”

E, num conjunto de grupos de 20 crianças, a grande maioria tem familiares e amigos a viver noutros países, ou que nasceram noutro país. À minha frente estão os frutos deste novo mundo: mundo de migrantes, mundo global, intercultural, interligado. Não há – na minha opinião – tema mais actual e mais importante do que este, das migrações, dos cruzamentos, do diálogo intercultural. É imprescindível para uma educação para a Paz, para a cidadania, para a justiça, para a empatia, para o Futuro.

Desde que fui voluntária nos campos de refugiados na Grécia tenho participado em variadas sessões sobre migrações, refugiados e a guerra na Síria. Comecei por falar perante plateias de adultos mas cedo percebi que nessas conversas das duas uma: ou tenho perante mim pessoas com uma postura esclarecida e de concordância e é uma espécie de “pregar aos convertidos”; ou tenho perante mim adultos com uma atitude negativa cheia de ideias já bem vincadas e extrema relutância em mudar.

O que fazer então? Como conseguir partilhar estas vivências e ter um alcance mais relevante e duradouro?

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O desafio para ter estes debates em escolas mostrou-me um outro caminho. Os adolescentes e pré-adolescentes não têm filtros nem pudores em fazer perguntas incómodas. E, ao mesmo tempo, que já guardam em si vários mitos e replicam preconceitos que ouvem por aí, demonstram também uma abertura genuína quando a abordagem lhes cativa. Comecei a sentir um entusiasmo crescente nessas conversas e sinto sempre um nervoso imenso e inédito a pensar nestas sessões que são sempre diferentes e imprevisíveis. É uma responsabilidade gigante falar para mentes em formação.

O desafio na Gulbenkian foi ainda mais além no grau de dificuldade: falar sobre estes temas delicados com crianças do primeiro ciclo. Seria possível, aconselhável? Fica clara a importância destas conversas quando os miúdos me contam que já viram na televisão barcos cheios de pessoas a afundar e crianças com feridas na cara por causa de bombas que rebentaram em casa, nas ruas, na escola, no hospital… E quando me dizem que a conversa que estamos a ter “é boa” porque lhes permite “desabafar”. Ignorar não é mesmo solução.

Começo a conversa com aquilo que acredito ser o melhor ponto de partida: o mundo. Mostro-lhes o globo. Falamos sobre as peças de arte do Museu vindos de países tão diferentes – Síria, Turquia, Irão, China, França – e coleccionadas por alguém – “o Sr. Gulbenkian” – que também migrou e cuja família foi perseguida por vir de um país chamado Arménia. Juntos, chegamos à conclusão que as pessoas migram, os animais migram, até os objectos e as ideias migram. O mundo é mundo porque se move, feito de um movimento perpétuo.

Depois vemos as fotos e os vídeos que fiz nos campos de refugiados da Grécia com crianças como eles. Apresento-lhes o Ahmed, a Selina, a Noor. As crianças da Síria, do Iraque e do Afeganistão que conheci em Chios. Faço-me de ponte entre eles. Eles aceitam a travessia e por momentos estão todos juntos na mesma sala.

“Também gostam de saltar à corda e fazer macacadas como nós”

“Falavas com eles em que língua? Usavas o Google Translator?”

“Estiveste mesmo ali? Foste tu que tiraste essas fotos? É mesmo a tua voz nesse vídeo?”

Durante a conversa procuro não dramatizar, não lhes quero nunca provocar medo ou desconforto, não quero impor ideias, não quero (mesmo!) “colonizar” o pensamento deles com as minhas convicções. Por outro lado, também não quero banalizar as tragédias ou reforçar a ideia da inevitabilidade da guerra, das injustiças e das desigualdades – não são inevitáveis, não são, não podem ser.

Quero somente partilhar coisas que vi e vivi, ajudar a esclarecer algumas coisas que eles viram na televisão ou ouvem em casa e na escola, abrir linhas de pensamento, iniciar um diálogo.

“Imaginem agora: e se estes meninos da Síria agora viessem morar para Portugal, para a vossa cidade e estudar na vossa escola? Gostavam? Como é que os recebiam?”. Criar pontes.

“Joana, aí no globo: onde é a Síria?”

“Onde é Portugal?” “Ah…Não ficamos assim tão longe”

“Onde é a Grécia?”

“Onde é Angola?”

“Onde é a Suíça?”

“Onde é o Oceano Pacífico?”

“Onde é…?”

Não me canso nunca de lhes satisfazer a curiosidade geográfica, apontar os países, o norte e o sul, os oceanos na bola insuflável e de girar o mundo com eles. E termino sempre feliz – nó na garganta e a transbordar de emoção – quando olho para eles e vejo que… sim, o caminho pode ser mesmo por aqui: Eles Têm o Mundo nas Mãos.

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Diário de Chios #13

dia do pai

Dia do Pai

Aos pais-coragem, pais-heróis, pais que se viram do avesso e fazem das tripas coração. Pais que salvam os filhos. Que lhes salvam a vida e a infância. Pais que vão até ao fim do mundo. Pais que suportam o inimaginável. Pais que choram por dentro e sorriem por fora. Pais que ajudam a preservar na memória dos filhos um lugar chamado infância. Pais que abraçam, pais que cuidam, que dão colo e cavalitas, que guiam, que dizem que vai passar. Pais que lutam, que acreditam, que não desistem. Pelos filhos.
Feliz Dia do Pai aos mais admiráveis que eu conheço.

Fotos: Chios, Grécia 2017

Moda Quechua: alta costura made in Vale Sagrado, Perú

Há uns dias li uma notícia sobre a indústria têxtil portuguesa estar apostada nas exportações para a América Latina. Um empresário dizia que o foco eram as camadas da população com “maior apetência por produtos de maior valor acrescentado”. Estava a ler isto e lembrei-me da absoluta perfeição que atingem as peças têxteis produzidas por mulheres e homens no Perú e na Bolívia. As cores, os desenhos, os padrões, as texturas, as histórias agregadas a cada um dos fios de lã de alpaca, lama ou ovelha transformados em arte. Comunidades indígenas que reproduzem, ao longo dos séculos, técnicas primorosas através de processos manuais, sustentáveis e amigos do ambiente e que dependem da venda destes artigos para a sua sobrevivência. No Vale Sagrado dos Incas, no Perú, como depois na Bolívia, vimos arte e alta costura a acontecer nas aldeias e centros têxteis. Primeiro, a lã de alpaca é lavada à mão com produtos naturais, depois seca, dando-se início à fiação com um fuso de madeira. A “fibra dos deuses” é então colocada em panelas para tingir (plantas, terra e insectos dão as cores desejadas). Com os novelos feitos começa o processo manual de tecelagem através do entrelaçamento criativo dos fios. Todos os desenhos e padrões têm significado e contam histórias transmitidas de geração em geração. E, enquanto fazia este vídeo, fiquei a pensar no que terá “maior valor acrescentado” do que isto…

Ir ao Salar de Uyuni com uma criança?

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Faz esta semana um ano (já?!) que partimos na viagem de volta ao mundo. Por isso, fui à gaveta… Quando nos perguntam, por exemplo, qual o sítio desta viagem onde gostaríamos de voltar a resposta passa pelo Salar de Uyuni e a Reserva Eduardo Avaroa, na Bolívia. Aqui passámos três dias intensos a bordo de um jipe partilhado com desconhecidos. Não foi a etapa mais fácil mas foi provavelmente a melhor. Ora espreitem lá.

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Diário de Chios #12

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– Vais embora? E quando voltas?, perguntaram-me na despedida de Chios.
A todos disse o mesmo:
– Espero voltar mas não vos quero ver aqui… Espero que já estejam longe, num lugar bonito e seguro.

E subi ao avião que me trouxe de volta ao meu lugar seguro. Chios ficou a ser só um pontinho minúsculo no meio do Egeu até que desapareceu da minha vista. Para a Europa, para as instituições europeias, para as organizações humanitárias, para as nações unidas, para os governos nacionais, Chios é também apenas um pontinho no mar Egeu. Longe da vista. Não conhecem a Yosra, o Mustafa, o Sahin, a Selina, o Meyer, o Mohammed, o Zico, a Reem grávida do Yosef, a E. grávida de 8 meses (e que nunca fez uma única ecografia), o Haider, a Ibtesam, a Noor, a Zahara, o Mahmud, o Adel, a Randa, o Zafar, a Rihanah…e as quase 2.000 crianças, mulheres e homens vindos de partes do mundo que estão a arder.

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Diário de Chios #11

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Tina. É uma das funcionárias da câmara municipal de Chios e trabalha na limpeza do campo de Souda. A gestão do campo é partilhada entre o município e o Conselho Norueguês para os Refugiados. A repartição das funções não é muito clara em vários domínios mas isso é só um pormenor. Chios é uma ilha grega que, tal como muitas outras, vivia do turismo. Com a crise dos refugiados os turistas deixaram de vir e há na ilha um clima de animosidade em relação aos migrantes. Em Novembro chegou mesmo a haver um ataque ao campo por grupos de extrema-direita.

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Diário de Chios #10

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As primeiras vezes que vi Mustafa estava convencida de que ele trabalhava para alguma organização internacional, via-o a fotografar bastante no campo, a fazer videos, a ser um excelente comunicador, a falar inglês fluentemente, cheguei a pensar que integrava alguma comitiva oficial da União Europeia ou do ACNUR. Foi com surpresa que percebi que era também ele um refugiado.

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