Diário de Chios #13

dia do pai

Dia do Pai

Aos pais-coragem, pais-heróis, pais que se viram do avesso e fazem das tripas coração. Pais que salvam os filhos. Que lhes salvam a vida e a infância. Pais que vão até ao fim do mundo. Pais que suportam o inimaginável. Pais que choram por dentro e sorriem por fora. Pais que ajudam a preservar na memória dos filhos um lugar chamado infância. Pais que abraçam, pais que cuidam, que dão colo e cavalitas, que guiam, que dizem que vai passar. Pais que lutam, que acreditam, que não desistem. Pelos filhos.
Feliz Dia do Pai aos mais admiráveis que eu conheço.

Fotos: Chios, Grécia 2017

Moda Quechua: alta costura made in Vale Sagrado, Perú

Há uns dias li uma notícia sobre a indústria têxtil portuguesa estar apostada nas exportações para a América Latina. Um empresário dizia que o foco eram as camadas da população com “maior apetência por produtos de maior valor acrescentado”. Estava a ler isto e lembrei-me da absoluta perfeição que atingem as peças têxteis produzidas por mulheres e homens no Perú e na Bolívia. As cores, os desenhos, os padrões, as texturas, as histórias agregadas a cada um dos fios de lã de alpaca, lama ou ovelha transformados em arte. Comunidades indígenas que reproduzem, ao longo dos séculos, técnicas primorosas através de processos manuais, sustentáveis e amigos do ambiente e que dependem da venda destes artigos para a sua sobrevivência. No Vale Sagrado dos Incas, no Perú, como depois na Bolívia, vimos arte e alta costura a acontecer nas aldeias e centros têxteis. Primeiro, a lã de alpaca é lavada à mão com produtos naturais, depois seca, dando-se início à fiação com um fuso de madeira. A “fibra dos deuses” é então colocada em panelas para tingir (plantas, terra e insectos dão as cores desejadas). Com os novelos feitos começa o processo manual de tecelagem através do entrelaçamento criativo dos fios. Todos os desenhos e padrões têm significado e contam histórias transmitidas de geração em geração. E, enquanto fazia este vídeo, fiquei a pensar no que terá “maior valor acrescentado” do que isto…

Ir ao Salar de Uyuni com uma criança?

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Faz esta semana um ano (já?!) que partimos na viagem de volta ao mundo. Por isso, fui à gaveta… Quando nos perguntam, por exemplo, qual o sítio desta viagem onde gostaríamos de voltar a resposta passa pelo Salar de Uyuni e a Reserva Eduardo Avaroa, na Bolívia. Aqui passámos três dias intensos a bordo de um jipe partilhado com desconhecidos. Não foi a etapa mais fácil mas foi provavelmente a melhor. Ora espreitem lá.

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Diário de Chios #12

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– Vais embora? E quando voltas?, perguntaram-me na despedida de Chios.
A todos disse o mesmo:
– Espero voltar mas não vos quero ver aqui… Espero que já estejam longe, num lugar bonito e seguro.

E subi ao avião que me trouxe de volta ao meu lugar seguro. Chios ficou a ser só um pontinho minúsculo no meio do Egeu até que desapareceu da minha vista. Para a Europa, para as instituições europeias, para as organizações humanitárias, para as nações unidas, para os governos nacionais, Chios é também apenas um pontinho no mar Egeu. Longe da vista. Não conhecem a Yosra, o Mustafa, o Sahin, a Selina, o Meyer, o Mohammed, o Zico, a Reem grávida do Yosef, a E. grávida de 8 meses (e que nunca fez uma única ecografia), o Haider, a Ibtesam, a Noor, a Zahara, o Mahmud, o Adel, a Randa, o Zafar, a Rihanah…e as quase 2.000 crianças, mulheres e homens vindos de partes do mundo que estão a arder.

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Diário de Chios #11

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Tina. É uma das funcionárias da câmara municipal de Chios e trabalha na limpeza do campo de Souda. A gestão do campo é partilhada entre o município e o Conselho Norueguês para os Refugiados. A repartição das funções não é muito clara em vários domínios mas isso é só um pormenor. Chios é uma ilha grega que, tal como muitas outras, vivia do turismo. Com a crise dos refugiados os turistas deixaram de vir e há na ilha um clima de animosidade em relação aos migrantes. Em Novembro chegou mesmo a haver um ataque ao campo por grupos de extrema-direita.

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Diário de Chios #10

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As primeiras vezes que vi Mustafa estava convencida de que ele trabalhava para alguma organização internacional, via-o a fotografar bastante no campo, a fazer videos, a ser um excelente comunicador, a falar inglês fluentemente, cheguei a pensar que integrava alguma comitiva oficial da União Europeia ou do ACNUR. Foi com surpresa que percebi que era também ele um refugiado.

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Diário de Chios #9

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A culpa foi toda do Mahmud. Sempre que me via com a máquina fotográfica no campo pedia-me para fotografar. Eu ia deixando, um bocadinho aqui, um bocadinho ali e, às tantas, já ele desaparecia pelo campo adentro à procura do melhor clique. À noite, quando eu chegava a casa olhava as fotografias dele e reparava em coisas que me escapavam durante o dia, via o campo pelos olhos do Mahmud: certos sorrisos, certos olhares, outros espaços do campo, pormenores do dia-a-dia, uma espontaneidade difícil de capturar por quem chega de fora e está de passagem. Perante o entusiasmo dele propus fazer uma espécie de mini-workshop com algumas das crianças mais crescidas. Sem grandes linhas orientadoras seria apenas um olhar sobre a vida num campo de refugiados segundo os próprios. As suas vozes traduzidas em imagens, uma forma de expressão em que eu não precisava de falar árabe ou curdo nem eles inglês para nos entendermos. Numa loja de fotografia da cidade pedi para imprimir as melhores. Hoje foi o dia da exposição à entrada do campo, uma galeria de arte ao ar livre. Bem sucedida e com muita procura: as fotos desapareceram quase todas.